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DO MEU BOLSO, TUDO! DO ORÇAMENTO, NADA!

por Manuel José Homem Mello em Maio 07,2008

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Continuando a percorrer alguns acontecimentos ocorridos em tempo que bem pode ser considerado distante, contarei hoje outro episódio protagonizado, uma vez mais, por Oliveira Salazar, episódio que me foi referido por quem a ele assistiu . Neste caso, não tive a menor intervenção. Também não será de admirar pois, à época, deveria ter dois ou três anos de idade.
Estava-se em 1931. Presidia ao Governo da Ditadura Nacional um senhor general de nome Vicente de Freitas, senhor general esse cuja presença a História não regista. Era ministro das Finanças - mas apenas eufemisticamente - o prof. doutor António de Oliveira Salazar, porque, efectivamente, quem já tudo mandava era ele.
Ministro do Interior, era o coronel Lopes Mateus, que viria a ser meu primo por afinidade, resultante de um segundo matrimónio. Embora bem mais velho do que eu, engraçou comigo nos alvores da minha participação na vida política, tendo-me convidado para discursar em publico, pela primeira vez, numa sessão comemorativa do 28 de Maio, teria eu uns 20 anos. Foi a minha estreia comicieira.
Segundo me contou Lopes Mateus, os Conselhos de Ministros pouco mais eram do que mera formalidade, uma vez que todas as decisões cabiam ao titular das Finanças, ao qual, assim, bem se poderia aplicar o dito popular “antes de ser já era”.
Numa dessas reuniões, já prestes a terminar, o general-presidente - o tal que era mas não era... - pediu uns minutos de atenção, sobretudo do ministro das Finanças, uma vez que tinha um assunto particular que desejava expor aos colegas do Governo.
E que desejava o presidente do ministério ?
Exibindo uma folha de papel com algumas linhas escritas à mão,  adiantou tratar-se de um pedido formulado pela viúva de um alto funcionário do Estado, de quem o general fora muito amigo, viúva que vivia com grandes dificuldades, após a morte do marido. A senhora pedia aumento da pensão vitalícia, de modo a poder continuar a viver condignamente.
A exemplo do que acontece com os espectadores das  partidas de ténis, que seguem a trajectória da bola,  rodando compassadamente as respectivas cabeças, também os ministros se viraram em uníssono para o colega das Finanças, aguardando o necessário veredictum.
Oliveira Salazar fitou os presentes com olímpica serenidade, levando a mão direita ao bolso interior  do lado esquerdo do casaco e sentenciou: ”Senhor presidente do ministério e caros colegas, compreendo perfeitamente as dificuldades da senhora. Por isso, estou disponível para uma ajuda proveniente do meu bolso, mas do Orçamento do Estado, nem um tostão !”.
O equilíbrio das finanças públicas pairava acima de quaisquer outras circunstâncias. As viúvas (e não apenas a impetrante) continuaram a viver com as maiores dificuldades, mas o Orçamento conseguiu manter o almejado equilíbrio.



                  



























 



 




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