…Assim uma espécie de gole de Estado!
Em Espinhel, há algum alvoroço e confusão nos meios políticos. Pelas leituras diversas que se fazem dos cânones, há quem diga que existem laivos de bonapartismo nalguns sectores. Visivelmente agastado, o Manuel Tampos contou o que se passou: “Reuniu a assembleia de freguesia para eleição do presidente. Foram distribuídos os boletins de voto para cada um os preencher e eu estava incomodado porque faltava um elemento da minha equipa. Chegada a hora de os meter na urna, um dos meus, completamente distraído, sim, eu acho que não estava vendido, esqueceu-se de fazer a cruz e meteu o voto em branco.... Ele ainda tentou apanhá-lo pela ponta, mas já não foi a tempo. E isso levou a uma derrota inglória e quem foi eleito foi o José Américo Figueiral, que era da lista dos infiéis”. “Isso é falta de liderança ou falta de respeito pelo lider “, observou o Américo Romano. “Não é falta de liderança, porque eu sou um lider nato – replicou o Tampos – o que eles queriam era alcançar o poder sem o ter ganho, assim uma espécie de golpe de estado. “Isso é feio!”, murmurou o Américo Romano. “ Pois é, mas eu não os deixei lá ficar - respondeu o Tampos, sorridente – reuni outra vez a assembleia e nem aqueceram o lugar. Fomos de novo a votos, ninguém faltou nem ninguém se enganou e ganhou o meu camarada de lista, Cláudio Ponteiro, que está do meu lado! E se a lei me deixasse, quem era o presidente da assembleia era eu!”. O Nunes de Espinhel, que também foi presidente da Junta por vários mandatos, meteu-se na conversa: ”Até se diz por lá que você é presidente, tesoureiro e secretário da Junta, só faltava também ser presidente da assembleia. Mas se isso trouxesse paz, ainda vá lá. Mas anda tudo desunido e a união faz a força!...”. “Pois é essa união que eu quero – respondeu o Manuel Tampos – para condensar as diversas opiniões, o melhor é reunirem-se todos em um, que sou eu!”.
*** * *** Um grupo de homens e mulheres de cenho carregado seguiu para casa do padre de Aguada de Cima, Paulinho Gândaro, que os recebeu: “Que é que querem, querem a benção? Parece que vêm mal dispostos!”. ”E temos razão para isso – ripostou monocordicamente o Joaquim das Baterias – eu e os meus companheiros que, como sabe, compomos o coro sénior da igreja, fomos surpreendidos aí por uns rumores...”. “É verdade – continuou, carrancuda, a Lídia do Caimossa – nós andamos já a ensaiar os salmos, os hinos e as aleluias para a missa campal das Almas da Areosa, acompanhados pelo órgão que está na igreja, para sair tudo bem afinadinho...”. “E fazem muito bem, têm todo o meu apoio”, interrompeu o pároco. “Mas – continuou o Valdomiro dos Móveis – os da comissão fabriqueira dizem que não deixam sair o órgão da igreja para as Almas! E parece que é por influência dos do coro dos jovens, que é um corito que não se compara com o nosso”. “E veja lá que até já dissemos ao juiz das festas que poupávamos uma banda – acrescentou a Auzenda do Levi – púnhamos o coro com o órgão em cima de uma carro de bois enfeitado e íamos a cantar pela rua acima na procissão”. “Isso é um bocado complicado, porque o órgão é eléctrico – disse, apreensivo, o Acácio dos Parafusos – mas há uma maneira de resolver, vai outro carro de bois atrás, bem enfeitadinho, com um gerador”. “Se é assim – disse o Padre Paulinho Gândaro – podem ficar descansados que eu vou fazer tudo para que o órgão vá!”.
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