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A angariação de óculos para cegos!

por Redacção Soberania em Janeiro 20,2010

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O Lions é um Clube humanista, de pessoas escolhidas,  que têm por objecto ajudar com ajudas, isto é, acaudilhar movimentos de solidariedade para a prática da caridade, levando os outros a ser caridosos.
Num dos jantares mensais, o Engenheiro José Armando Rouco levantou-se, pediu ao presidente para falar, que permitiu com um toque de sino e falou piedosamente:
“Já promovemos o banco de leite para a infância, que é um sucesso e outras iniciativas e, como estou sempre a pensar nos outros, para além de nós, estava eu a ler o “Ensaio sobre a Cegueira”, do Saramago, e  pensei que podíamos agora organizar uma campanha que seria de altíssimo relevo social.
“Cá estamos para isso – aceitou o presidente Artur Verdelhão – cá estamos para tudo o que seja altruísmo”.
“Pois – continuou o Armando Rouco – seria uma acção que eu considero urgente, criar um outro banco!”. E concluiu enfaticamente: “A angariação de óculos para cegos!”
“Para cegos?! - exclamou, surpreendido, o Neves da Eléctrica – os cegos não vêem nada, não precisam de óculos é como quem anda a arranjar pentes para carecas!”.
“É evidente – resmungou o Armando Rouco – não são para cegos, são para quase cegos, para os que sofrem de miopia, estrabismo, fotofobia, estigmatismo, catracegos, e zarolhos... o que eu penso é que podíamos pedir a todas as pessoas que têm lá em casa óculos que deixaram de usar por estarem velhos e estragados ou porque estão demodés, que os entreguem.
“Mas isso é difícil – respondeu o Luís Bastinhos – temos que arranjar um sítio para os entregarem”.
“Exacto, a ideia é boa – disse o Joaquim Posta – podemos mandar fazer uns receptáculos como aqueles a que chamam vidrões e colocamo-los à porta dos estabelecimentos... e até lhes podemos chamar oculões!”.
“ E têm que ser pelo menos dois, um de cada cor – disse, reflexivo, o Armando Rouco – um para os óculos graduados e outro para os óculos de sol!”.
O Luís Bastinhos levantou-se e, de dedo em riste e ar magistral, disse: “Têm que ser é três, um para os óculos de sol, outros para os graduados até cinco dioptrias e outro para os de cinco para cima. Á minha porta convinha os de cinco para cima, por causa dos preços”.
Elisabete das Almas rematou com ar céptico: “Eu acho que temos que pensar melhor. Se as pessoas vêem mal, vão misturar os óculos uns com os outros, é trabalho escusado!”.
O Poeta Catula logo que teve conhecimento desta iniciativa humanitária do Lions a ela se associou, escrevendo este delicioso poema:
Se tem óculos lá em casa
Antigos que já não usa
Graduados ou de sol
De armadura dura ou mole
Made in England ou en U.S.A
Ou mesmo umas lunetas
De lentes brancas ou pretas
De meia dioptria
 ou de fundo de garrafa
Ou até de garrafão
Ou outros que tais
Meta-os no oculão
Dê aos cegos alegria
Este poema já estafa
Portanto, não escrevo mais!


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