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Não sabia do ritual e fugiu com os apoiantes!

por Redacção Soberania em Janeiro 19,2011

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Aquela que foi a capital dos veículos de duas rodas,  com motor e  sem ele, porque é uma cidade colinosa e acidentada, nunca motivou os  amantes da bicicleta. Só um homem, o José Falorca e não Falorco, como lhe chamam, há muitos anos sobe e desce ruas e avenidas, vindo do Sardão.
O Clube mandou pintar as ruas com uma faixa vermelha junto ao passeio, a que querem chamar ciclovia, com a intenção, supõe-se, de vitaminar o interesse pelos pedais. Alguém sugeriu - e bem – que aquela delirância fosse chamada Via Falorca.
O José Falorca ficou contente e valendo-se do seu estatuto de único utilizador da ciclovia foi ao Clube da Venda Nova mostrar algum desagrado. Encostou ao edifício-sede a sua bicicleta prateada, reluzente, com mudanças Shimano, travões V Bracke, selim Brooks e suspensão Rock-shock e com um autocolante no quadro a dizer “Falorca Race”. Entrou estando o executivo reunido e disse ao que vinha:
“Eu não estou contra a ideia de marcarem o percurso para as bicicletas, até agradeço muito – e fez duas vénias, inclinando o tronco – já há grupos organizados de passeadores de bicicleta, ciclo turismo, ciclo-cross e até há lá em cima uma escola do ciclo...”.
“E então o que é que quer”,  perguntou o Gil Pedalais, com um sorriso complacente. “Quer mais tinta?”.
“Não, se calhar até tem tinta a mais – respondeu o Falorca – o que acontece é que o traço vermelho está junto aos passeios e estacionam-lhe os carros em cima! Passo a vida a estender o braço para ultrapassar os carros parados na ciclovia”.
“Não há remédio – considerou o Jorge Enfermeiro – ninguém respeita nada...”.
“Eu acho que há e por isso é que cá vim – retrucou o José Falorco – em vez de terem a faixa pintada junto aos passeios, onde estacionam os carros, pintem-na da mesma largura no meio da rua, lá ninguém estaciona...”.
“Pois é– acrescentou o João Piedoso – os carros lá parar não param, mas andam...”.
“Mas não andam se lá puserem umas grades de ferro nas margens do risco!”, disse o José Falorca. E mais: “A quilo é para bicicletas, é para bicicletas!
“Isso resultava, mas tínhamos que encomendar quilómetros de grade e escavacar as ruas todas”, disse o Gil Pedalais, com ar pensativo e acrecscentando: “Por agora, temos que deixar estar como está!”.

*** * ***
A Festa dos Santos Mártires, celebrada romaria de Travassô, decorria como sempre alimentada pela religiosidade do povo que piedosamente seguia na procissão atrás dos pendões, dos andores, do pálio, com o silêncio apenas cortado pelos acordes da banda 12 de Abril.
 A certo momento sentiu-se o burburilhar da multidão que assistia à procissão.
“Que é que se passa?”, perguntou o Zé Carlos Centago.
”Estamos na época dos comícios e  arruadas de caça ao voto para as eleições de domingo” - respondeu o Celestino Vi o Egas – “e o Aníbal Prato Pequeno lembrou-se de vir para aqui com um candidato”.
As pessoas não acharam bem, houve quem reagisse e não concordasse que misturassem política com religião.
“Mas esse candidato veio cá  como mártir, ou pedir aos santos que o ajudem?”, perguntou o Mário Martírios, com um riso maroto.
“Acho que ele veio pedir ajuda” - respondeu o Vi o Egas – “mas quando viu quem seguia na procissão cheio de armas às costas, não sabia do ritual e fugiu com os apoiantes!”.


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