Clube da Venda Nova: Deve ser o prémio do... absurdo!
«Como se verifica das contas apresentadas – falou na assembleia, com convicção séria ou não, em palavras embrulhadas em tons sedosos, o presidente do Clube, Gil Pedalais – o passivo caiu em mais de cinquenta mil euros. Isto é fruto de uma gestão criteriosa, gastos parcimoniosos...». «É verdade – continuou o João Piedoso – não gastamos em nada que seja supérfluo ou voluptuário, é tudo para bem do povo que nos elegeu». «Mas não têm feito nada - interrompeu o Zé Oliva, com voz de falsete – andam a estragar o dinheiro que não têm no Cais das Laranjeiras e até o açude postiço que lá instalaram rebentou...». «Está enganado ou anda distraído – resmungou o Jorge Enfermeiro – o açude é forte e já está remendado e essas obras entram no pacote da regeneração urbana...». «E entra tudo no pacote?», perguntou o Hilariante Santos. «Nem tudo – continuou o Jorge Enfermeiro – temos que pagar 15%...». «E também damos algum para valetas e passeios para as freguesias – continuou a Excelsa da Corga – e vamos construir paragens de auto-carro em vidro, assim uma espécie de redomas...». «Ricas saunas – atalhou o Hilariante Santos soltando uma gargalhada – isso vai-me dar muito jeito e também ao presidente Pedalais...». «Temos que acreditar no turismo – disse com voz firme e ufânia o Gil Pedalais – neste mês de Maio ainda, vão entrar em funcionamento as ciclopistas que vão revolucionar o trânsito e a vida da cidade. Já encomendámos bicicletas eléctricas, devem estar ai a chegar e esta minha ideia até já recebeu um galardão internacional...». «Deve ser o prémio do absurdo!», zombou o Zé Oliva. «Olhe que não é – disse a Excelsa da Corga - já pintámos as ruas da cidade e agora vamos criar zonas de serviço e lojas de conveniência, como nas auto-estradas, com máquinas de electricidade para abastecer as bicicletas e um pequeno bar para tomarem café enquanto esperam». «O abastecedor tem que ser um electricista, para não ficar lá ninguém agarrado», comentou o Marques de Recardães. «Só por esta ideia e esta iniciativa que terá sucesso certo, vamo-nos abster e deixar passar as contas», declarou com ar solene e vencido o Hilariante Santos. O Brito Redentor, membro do Clube, que tinha com seus pares, chumbado as contas, levantou-se indignado: «Mais uma ato inqualificável de indisciplina partidária. Vou reflectir se para a próxima venho pelos laranjas ou não». *** * *** O ilustre escritor de Espinhel Manuel Carvalhal, imigrado no Porto, que tem escrito em lídima linguagem os encantos dos milheirais, pinheirais, sapais e juncais da pateira e dos barcos a vogar em cima de pimpões, escreveu agora um livro de contos para crianças a que chamou “Praia dos Caracóis» e «Maldita Gelatina”. Apresentou-o na Biblioteca Municipal a convidados adultos a empurrar com os dedos os ponteiros do tempo. Mesa de honra e gente ilustre a enobrecê-la e alocuções depois da fala do apresentador da obra. A seu tempo, falou o Manuel Tampos de Espinhel: «Sinto muito orgulho em saudar este homem da minha terra. É um ser muito humano, que escreve com tanta humanidade que até se pode ler e se entende o que ele quer dizer. Já li os romances dele e percebi tudo o que se passou nos milheirais. Fez uma pausa, tossicou pondo o punho em frente à boca e continuou: «Ainda não li este livro, mas gosto muito de caracóis e estou a imaginar os caracóis na praia, com os cornos ao sol e a comerem gelatina em cima de uma couve. Este escritor, com a sua humanidade, escreveu o hino heróico da nossa freguesia de Espinhel e quem o ouvir nunca mais deixa de o cantar». A terminar a apresentação o presidente Gil Pedalais usou da palavra e disse: «Também gosto de caracóis, que me fazem lembrar os políticos, mas gosto mais deles estufados à meunier!».
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