Clube da Venda Nova: Que vão pôr a primeira pedra no fim da estrada, em Aveiro...
Na sede dos rosas, foi marcada uma reunião para análise da situação política actual. O Sócrates foi-se embora e os rosas saíram do poder. Vêm aí eleições. «Temos que fazer alguma coisa que nos dê visibilidade, uma inauguração, uma festa com discursos e foguetório porque isto pega-se, é contagioso!», disse o Gil Pedalais para os seus pares. «Tem aí tantas obras, a rotunda da ponte, bem empedrada, parece o jardim de um palácio!», continuou o João Piedoso. «E o Cais das Laranjeiras, que ficou tão bonito!». «Mas essas obras trouxeram grande incómodo à população, tiveram as ruas fechadas e meias fechadas, é melhor não pensar em ir para aí», observou a Excelsa da Corga. «Também acho – concordou o Jorge Enfermeiro – agora que rebentaram com o açude, lá se foi o espelho de água que tanto embelezava a nossa cidade...». «É verdade – observou o Pelé Bancário - mas isso mostra a fragilidade de tal obra, para a destruir não foi preciso nenhuma máquina pesada...». «Mas também não foi nenhuma lampreia a subir o rio que fez aquilo», ironizou o S. Bento de Alcafaz «Foi alguém que quis o rio seco porque a água é turva!» «Estou a lembrar-me de um acontecimento que pode ser agora retomado e explorado, mas é evidente que é mais uma vez fogo-fátuo», disse o Gil Pedalais, a olhar para o ar e a cofiar a barba. E continuou: «Como sabem, faz agora três anos, veio cá a Águeda o então ministro Mário Jamais, acompanhado de um enorme séquito e depois de ser recebido com honrarias no salão nobre do Clube e de lhe ter sido oferecido um jarrão da China do Outeiro, foi à rotunda do Milénio destapar uma placa a anunciar uma obra que é indispensável - a variante Águeda-Aveiro, que encheu de esperança todas as pessoas. E pôs no chão uma pedra, que seria a primeira...». «Isso mesmo, podíamos ir lá outra vez – disse o Manuel Farás, esfregando as mãos a espevitar a ideia – convocamos o povo, uns ainda se lembram, outros não, cobrimos a placa com um pano e destapamo-la outra vez. Depois fazem-se uns discursos inflamados a falar da excelência da via rápida, sublinhamos que se vai passar a ir e vir a Aveiro num esfregar de olhos...». «Convida-se o Celestino de Almada e o Paulo Assucena para fazerem os discursos, o padre Camões para benzer outra vez a placa e o Deniz de Bouquets ou o nosso camarada Silva Frango para fazerem a história dos milheirais que vão ser expropriados para passar a estrada!», aventou o Jorge Enfermeiro «Mas não se fez nem faz obra nenhuma, a estrada não é mais do que um papel, um projeto...», arengou o cético e distraído Seara Alheia. «Pois não, até parece que nem és político – observou o Gil Pedalais – nós não vamos dizer que a fazemos hoje, mas também não vamos dizer que não a faremos amanhã. O Jamais veio cá pôr uma pedra e nós pomos lá outra e vamos dizer que é a primeira. E se vier um novo governo para fazer outra inauguração que tenha paciência, têm que ir pôr a primeira pedra noutro lado, que a vão pôr no fim da estrada, em Aveiro...». * *** * O Joaquim da Trigal, às sete da manha, estava a abrir a porta da pastelaria triste e descorçoado, com um adesivo no nariz, um hematoma num olho e a camisa rasgada! «Ó homem, o que é que lhe aconteceu, está todo esmurrado?», inquiriu, com curiosidade, o José do Candeeiro, a tirar umas laranjas da furgonete. «Olhe, levei umas bordoadas em Lisboa, junto ao estádio de Alvalade, mas por um lado até gostei, a gente do Sporting é aguerrida...». «Mas porque é que o deixaram nesse estado, até parece o Senhor dos Passos?». «Andava por lá distraído e estava com um amigo a falar de num tal Godinho. Caíram-me em cima a gritar... “Ai tu não és do Carvalho? Então levas...!”. E levei mesmo e sem saber porquê!». O Zé do Candeeiro, gaguejante, comentou com ironia: «Poxa, ó Sr. Joaquim! Eles eram do Sporting, mas puseram-lhe um olho à Belenenses».
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