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Vinha uma saraivada e lá ia tudo!

por Redacção Soberania em Maro 02,2011

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Reuniram em assembleia, mas em sessão morna, os deputados ou membros, meigos e gelatinosos. Mais uma vez se falou da questão central e emergente, da água.
«É malhar em ferro frio, mas tem de afirmar-se o escândalo, a impudência do preço da água e do saneamento», disse o António Martírios. E disse mais: «É um atentado à economia da população que anda revoltada».
«É tal o desaforo… – afirmou, com convicção a Nair do Barrete – que algumas famílias passaram a optar pelo vinho em detrimento da água, não só lhes traz mais euforia como pensam que vêem a conta a dobrar!».
“Ora, a população não tem razão – explicou o Gil Pedalais - a água não está cara, o que estava era muito barata, já não subíamos o preço há dez anos, o Clube é que andava a subsidiar! Eu, por causa disso, nem me queixo!”
«Mas não há dinheiro... nem para a cultura – observou, com estridência, o Alberto Marquês – o Clube tinha uma relação muito próxima, quase de amantismo, com a M’orfeu, a mostrar alguma tendência para as coisas do espírito, mas de repente afastou-se...».
«Mas devem reapaixonar-se…», interrompeu, com ternura e trejeitos adamados, o Seara Alheia.
«Terá havido namoro, mas acabou – disse contrariado o Gil Pedalais – quando começaram a falar na instalação de uma incubadora na Alta Vila...».
«E tivemos razão – continuou a Excelsa da Corga – se tomarmos por comparação o que aconteceu no Hospital de Águeda, que acabaram com a obstetrícia e com a pediatria, não íamos agora instalar logo ali ao lado uma incubadora para revitalizar fetos ou prematuros!”.
«Muito bem – aplaudiu o Zé Oliva – deixem-se dessas florestrias e pensem em coisas que se vejam, como, por exemplo, cultivar o campo de Águeda...».
«Qual campo?», perguntou alguém da galeria. «Se é o dos milheirais, está todo alagado e cheio de enguias no inverno».
«É claro que não me refiro às culturas tradicionais, que não têm impacto – continuou o Zé Oliva, ignorando o aparte – mas a outras diferentes, tropicais, como as palmeiras, as bananas, o café e o algodão...».
«Ó homem, você não está bom da cabeça – observou o Jorge Americano – isso não se dá cá, vinha uma saraivada e lá ia tudo!».
«Bem, quem diz café ou algodão pode dizer grão de bico ou figos secos – continuou o Zé Oliva – o campo cultivado é a nossa riqueza! Agora andarem a pensar em gastar dinheiro em percursos pedestres pela serra acima, voto a favor, mas não concordo!».
«Pois não concorda mas devia concordar – disse, levantando-se, o Farás de Agadão – é de altíssimo valor turístico fazer um caminho para peões desde Agadão a Macieira de Alcoba, assim uma semelhança aos caminhos de Santiago».
«Isso não tem interesse nenhum – retrucou o Oliva – quem quiser andar a pé vai pelos caminhos dos pinhais!».
O poeta Catula, que assistia à reunião no meio do público anónimo, compôs este inspirado poema:
Que saudades
Dos milheirais
Das sachadeiras com seus aventais
E do toque das trindades
Porque o Oliva, o Zé,
Em vez de pão,
Quer no campo plantar
Bananas, café
E algodão!
Eu fico a chorar,
De saudades
Dos milheirais
Das sachadeiras com seus aventais
E do toque das trindades
Que não voltam mais!


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