Incio : Clube da Venda Nova : Clube da Venda Nova: Não acredito que haja racismo ou discriminação, era muito feio que houvesse!
Clube da Venda Nova: Não acredito que haja racismo ou discriminação, era muito feio que houvesse!
Discutiu-se acaloradamente na reunião da assembleia do Clube, o orçamento, as contas, o plano, as obras projectadas, feitas e por fazer, as em curso e de recurso e o Gil Pedalais suava e arfava, acossado pela oposição felina. «Só vos digo que os rosas passam a vida a parlapiar e o vosso parlapio nem para adormecer serve», disse o Brito Redentor, passando a mão na calva luzidia. «Vocês deviam estar à altura do vosso novo guru Pássaros Coelho, que é um homem de consensos, que, considerando a situação difícil em que estamos, tem sido colaborante e compreensivo», respondeu o Gil Pedalais. «Mas não admite as grandes obras públicas, que levam o dinheiro todo!», retrucou com veemência o Hilariante Santos. «É um homem comedido. Por isso - ripostou Gil Pedalais - é que nós vamos pedir para que seja suspensa a via rápida Águeda-Aveiro, porque com o rating que temos o dinheiro fica muito caro. Até vamos organizar mais uma festa em Águeda para retirar a placa que foi inaugurada pelo ministro Lino Jamais». «Então vão suspender uma obra que é importante - interrompeu, agitado e gaguejante, o Zé Oliva - e propõem-se fazer uma intervenção urbanística megalómana em Águeda, para destruir o que já está feito e as outras freguesias e vilas sem nada! Parece que uns são brancos e outros são pretos e analfabetos!». O Paulo Seara Alheia, com ar apaziguador e um gesto largo, disse: «Eu não acredito que haja racismo ou discriminação, era muito feio que houvesse, não são coisas do nosso tempo! Mas tem que entender que Águeda é a sala de visitas do concelho e as obras vão torná-la muito mais arejada...». «Isso é conversa - disparou o Manuel Tampos de Espinhel, com indignação - todas as Juntas se queixam de que não têm dotações orçamentais, não há dinheiro nem para pintar os carros de mão...». «Eu entendo que o Clube gere melhor os dinheiros públicos do que as Juntas - afirmou, com ar grave, a Margarida Embrenhada - além do mais, porque tem economistas, engenheiros, arquitectos, paisagistas, fiscais e outros que mais...». «Para realçar aquilo que a minha camarada acaba de dizer, vou-vos mostrar algumas das obras que vão ser feitas nesta cidade”, disse o Gil Pedalais, passando diapositivos num diaporama”. Para que não haja poluição na cidade, todas as ruas ficarão de sentido único, incluindo as peonizadas, os peões têm que começar a andar todos para o mesmo lado e em fila indiana. As faixas dos automóveis são em zig-zag, sendo o zig em ângulo recto e o zag em ângulo agudo, para que a marcha seja muita lenta e os condutores tenham tempo para verem as montras, com o intuito claro de apoiar o comércio». A Excelsa da Corga continuou a exposição: «Os quiosques e as estátuas vão ser mudados e se calhar vamos arranjar mais uns bustos para espaços verdes. O repuxo do tribunal vai ser mudado para alindar a casa do engenheiro, que não está lá com grande aspecto...». «E vamos construir no Largo 1º. de Maio alguns bares e um restaurante panorâmico, giratório, com 300 mesas e um balcão para petiscos – continuou o João Piedoso – e um passeio geriátrico com aluguer de bengalas e andarilhos». O Zé Oliva estava impaciente a mexer-se na cadeira e rematou: «Eu já nem quero ouvir mais nada. Vocês estão a delirar, se se metem nessas obras ainda vos acontece como à Grécia, que ficou na bancarrota!». O Wilson Tentilhão, de Barrô, fez um aceno concordante e resmungou: «Comigo não contem, que nós lá de Barrô não emprestamos dinheiro nenhum!»
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