Na minha ideologia, para trabalho igual, salário igual!
O Brito Redentor, activo e atento vereador eleito pela oposição do Clube da Venda Nova, questionou e questiona insistentemente o Executivo e em especial o presidente Gil Pedalais, para saber do destino de quantias que julga elevadas do erário do Clube. Parece evidente que há muita coisa que não bate certo e por esclarecer, designadamente transferências indevidas para funcionários, sem justificação. «E é de tal maneira - disse o Brito Redentor - que ocasionou um movimento reivindicativo de funcionários de outros clubes do país, que querem ganhar o mesmo que os do Clube da Venda Nova e foram para S. Bento com flâmulas, bandeiras e panos pintados com dizeres agressivos...». «Foi tão grande o alarido - continuou a Jacinta do Jacinto - que o primeiro ministro veio à porta e mandou-os vir cá para Águeda para lhes ensinarem como é que se faz, porque o dinheiro tem que sair dos cofres dos clubes e não de Lisboa!». «Eu não sei o que é que aconteceu - disse em tom apaziguador o Gil Pedalais, tamborilando no tampo da mesa com os dedos da mão esquerda - não processo os ordenados, não sei quanto é que ganham os daqui nem os de lá, quem sabe disso é o Jorge Enfermeiro... mas, na minha ideologia, para trabalho igual, salário igual!». «Pois era assim que devia ser, mas não é - objectou o Marquês de Recardães - e temos direito as ser esclarecidos do que se passa, quem transferiu e para quem!? Com esse dinheiro podíamos fazer caminhos, fontanários e lavadouros». «Por isso - acrescentou a Jacinta do Jacinto - como até agora nada foi esclarecido, exigimos um inquérito e a nomeação de um ROC...». «Por falar em ROC - disse, acutilante, o Brito Redentor « quando foi das empreitadas de Barrô, porque lhe cheirava a laranjas, mandou tudo para o Ministério Público. Agora cheira-lhe a rosas e não faz nada! Há dois pesos e duas medidas!». O Gil Pedalais, ouvindo aquilo, respondeu com meio sorriso: «Quanto às empreitadas de Barrô, só as mandei para o Ministério Público, para saber se foram reais, se virtuais. Quanto ao resto, já nomeei um revisor de contas». «Pois nomeou - respondeu, insinuador, o Brito Redentor - nomeou um que presta serviços ao Clube...». O Pedalais reagiu encarniçado: «Não me diga que está a duvidar do indigitado ROC, olhe que eu conheço-o bem e sei o que faz!» «Não é que duvide, mas sempre tenho alguma dúvida! Temos é que resolver esta questão em assembleia extraordinária, já mandámos um requerimento para o Celestino de Almada». O Raúl do Apito entrou na sala, cumprimentou com uma vénia e informou: «Venho dizer-vos que veio devolvida a carta enviada ao engº. Celestino de Almada, não devia estar em casa quando lá foi o carteiro». * ** O Partido da Foice e do Martelo de Águeda, passou da velha sede da Rua de Baixo, rua de grandes tradições, mas escondida e alagadiça, para uma sala ampla e moderna na parte nova da cidade. Antes de fechar a porta, o Abrunhões da Comuna fez um discurso lamuriento e saudosista, dizendo a terminar: «Foi aqui, nesta casa, que aprendi a lutar pelos trabalhadores, por ideais superiores que orientam o nosso partido e que vivi o espírito de Marx, Hengels, Lenine, Nelson Fiel...». «Deixa-te de discursos, que temos muita mobília para carregar - disse o António Manuel Talho - primeiro vai esta de torcidos e tremidos da Renascença...». O Balreira da Foice, com um pacote de jornais Avante às costas, retorquiu: «Não, não, deixa ficar essa da renascença, porque me faz lembrar o renascimento do fascismo! Traz é os tachos e nada de panelinhas!».
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