Foram até aos Abadinhos, à Feira do Mundo Rural!
As pessoas de Águeda e as outras que estavam cá, pararam nos passeios e nas ruas, vieram às janelas e assomaram às portas, pasmados e incrédulos. “Como é bonita e exaltante a humildade e a simplicidade de quem é grande!”, disse o Agácio do Gás, a olhar para os próceres da cidade que passavam empoleirados em bicicletas, de fato afiambrado, camisa de seda, gravata e sapatos de polimento e com uma mola da roupa na dobra da calça, para não se meter na corrente. Lá ia o presidente do Clube Gil Pedalais, ensaiando um estilo à Joaquim Agostinho, o Celestino de Almada, de barba hirsuta, tronco esticado que parecia o Rei D. Carlos a cavalo e até o Governador Civil, José Cociolo, na cauda do pelotão, como se fosse um aguadeiro. Foram até aos Abadinhos, à Feira do Mundo Rural. Apearam-se e foram saudados com palmas, com o zurrar de um burro de Sendim, pelo cacarejar de um pavão emplumado, que queria dar nas vistas e pela melopeia de um melro triste, como se tivesse perdido as eleições. O Gil Pedalais, dirigindo-se aos feirantes, falou do modo como tinha chegado: “Como viram, até nós, pessoas destacadas, utilizamos as bicicletas para participar em acontecimentos de grande notabilidade. Estamos numa feira, mas nem aqui se desvanece a importância da bicicleta. Venho trajado a rigor, mas lá em casa tenho o equipamento desportivo adequado - calças de licra, camisola rosa, agora desmaiada, meia branca e sapato de neon”. “Para quê?”, perguntou um feirante. “Ora, para subir e descer as ruas da cidade. E já que estamos numa feira de animais, pode também acoplar-se um atrelado à bicicleta, mas é evidente que não é para transportar um boi ou um cavalo. “E não custa nada”, sublinhou o Jorge Enfermeiro. “As bicicletas são elétricas, só tem que se pagar o carregamento nos postos de abastecimento, não podem trazer eletricidade de casa, nem pilhas, dínamos, baterias ou painéis solares, se não dão cabo do sistema e as rodas de trás não andam para a frente”. “E não pagam nada”, acresceu a Excelsa da Corga. “Basta apresentar o cartão de utente, que não pode ser clonado como os do multibanco e para o tirarem têm que trazer o certificado de registo criminal para provar que nunca roubaram bicicleta nenhuma, atestado médico comprovativo de que não sofrem de furunclose, não têm oxiuros nem alergia à eletricidade e apresentar certidão de que não devem nada à Fazenda Nacional, para a bicicleta não ser penhorada pelo caminho...”. “Isso é muita coisa”, atalhou o Fernando Balantaines, acrescentando que “é preciso isso tudo e não temos sítio para andar!”. “Agora têm – afirmou com veemência o Pedalais – têm as ciclovias, aquelas faixas vermelhas pintadas nas ruas e, como já foi anunciado e publicado nos jornais e em escritos espalhados pelas ruas e nos parabrisas dos carros, quem estacionar em cima delas leva, será implacavelmente multado!”. “Mas as ruas estão todas pintadas, aonde é que se põem os carros?”, perguntou o Hilariante Santos. “Está prevista a construção de silos, de grandes parques de estacionamento aéreos e subterrâneos”, informou o Gil Pedalais. “Ora, ora, quando os parques estiverem construídos, já a mania das bicicletas acabou e as faixas desapareceram”, resmungou o Paulo Roçado da Mata, encolhendo os ombros.
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