Até me apetece dizer “merci!”
Sealy season. Até o tempo é louco e estonteia. Ora está calor e o dia aberto, ora está frio e o tempo pardo, a inquietar o cidadão cada vez mais aturdido com os ventos de Lisboa e farto de apalpar o cotão dos bolsos. Programas de intertenimento, só agora com a Agitágueda ou, durante todo o ano, a Assembleia do Clube, onde se dramatiza e teatraliza a vida pública com os mesmos protagonistas, cada vez mais elegantes e menos agressivos nas diatribes, evidenciando, em momentos, erudição e ecletismo. Disso, fez gala o deputado Manuel Farás, que se levantou e disse: “S’il vous plait, je veux parler français, em pé!” Levantou-se, ajeitou a jaqueta de burel, soltou um tossido ligeiro e continuou, proferindo uma frase naquela língua, com pronúncia bilingue, ou seja, “françuguesa”, que depois traduziu. E falava na palavra “liberdade”. Foi tão entusiasmante que Celestino de Almada, presidente da Assembleia, clamou: “Até me apetece dizer daqui, merci!”. “Falou na palavra “liberdade” e palavras leva-as o vento, mas não na liberdade real e o que se faz por aí não o mostra!”, atalhou o Hilariante Santos. “Tem razão – aplaudiu a Eunice Popular – o Clube, autoritário, pintou umas faixas vermelhas nas ruas da cidade, nomeadamente na Joaquim Valente de Almeida, deu-lhes o nome pomposo de pistas cicláveis e agora não temos onde meter os carros!”. “Mas também não construíram o Centro Escolar da Pateira e andaram a gastar dinheiro a arrancar árvores e a enfeitar a cidade, esquecendo-se das freguesias”, disse, com veemência, o Manuel Tampos de Espinhel. “Eu é que ando deprimido e muito triste com o Clube – continuou o Silva da Funerária, da Trofa – antigamente gostavam da Trofa, agora não gostam!”. E desatou num choro convulsivo. “Por tudo o que está a acontecer, não só cá, mas também pelo país que rasteja, devíamos mostrar o nosso desconforto e indignação”, interrompeu, elevando o tom de voz, o José Vidigal. “Mas a indignação é, como diz a canção, uma mosca sem asas que não ultrapassa as janelas “, comentou a Excelsa da Corga. “Isso é se não se promover alguma coisa que cause surpresa, agitação, que seja pungitivo”, proclamou o Seara Alheia. “Estou-me a lembrar do que se fez em Lisboa, em Amesterdão, em Paris...”. Fez-se silêncio e ele continuou: “Devemos organizar um passeio de bicicletas, com homens e mulheres todos nus. Vão ver que vêm cá os jornais, as rádios e as televisões nacionais e estrangeiras...”. Ouviu-se um bruá e um reparo da Joana da Vitória: “Não seria má ideia, mas há quem leve a mal e considere impúdico. Em Lisboa, proibiram-nos de ir nus, tiveram que ir semi-nus...”. “E cá também irão semi-nus – respondeu o Seara Alheia – as proeminências não podem ir à mostra, para não ir nada a abanar. Assim, as senhoras levam a parte de cima tapada e os homens a parte de baixo”. O Aurélio Ólhó Lago que assistia na galeria, bateu as palmas e disse: “Assim, está bem, eu também vou e ofereço as bicicletas!”.
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