Clube da Venda Nova: Mandou descarregar o carro-de-mão aos pés do Hilariante Santos
O dia da Assembleia é um dia de emoções. De catarse para alguns, que envolvem no embrulho das politiquices picadas pessoais. Foi divulgado pelas avenidas da comunicação um panfleto com afirmações sérias contra o presidente do Clube, supostamente sustentadas em documentos. No dia da assembleia, à espera de investidas, o Gil Pedalais entrou no salão nobre como um gladiador, de armadura, elmo e espada, entrava no Coliseu de Roma. O Celestino de Almada abriu a sessão e logo pediu a palavra o Hilariante Santos. “Queremos saber, em face do que nos foi mostrado, o que é que se passa nos bastidores do Clube, se é verdade o que se diz. Quero que esclareça o que é escuro e que não escureça o que é claro. O que parece resultar dos documentos é evidente, não queira lá meter entrelinhas”. “Sim... – continuou o José Oliva - ressalta do que lemos que há pelo menos compadrio e nepotismo descarado, prebendas para amigos e correlegionários...”. O António Martírios levantou-se e disse em tom exaltado: “É de execrável pusilanimidade que alguém, que não dá a cara nem o nome, traga à liça política questões da vida pessoal. Mas, já agora, também gostava de saber se é verdade o que lá se diz. O Pedalais, já de saco cheio, pediu a palavra e manifestando indignação, respondeu: “É tudo claro e transparente. Quem forneceu os serviços e materiais ao Clube foi quem ofereceu mais garantias e melhores preços. E se querem ter a certeza consultem as requisições, as facturas, os recibos e o que entenderem...”. “Então vamos todos para a secretaria?”, perguntou o Lenine de Falgoselhe. “E como é que nós lá cabemos?!”. “Não, não é necessário”, disse o Pedalais, fazendo um gesto para a porta, por onde entrou o Raúl do Apito com um carro de mão, com a gamela cheia de papéis dispostos em maços, atados com um fio. Com outro gesto, mandou descarregar o carro-de-mão aos pés do Hilariante Santos, que se levantou num salto e clamou: “Então propagam que este é o Clube mais informatizado do país e em vez de me mandarem os documentos por correio electrónico, mandam-nos de carro-de-mão?! Eu não posso acreditar nisto!”
*** * *** O Zé do Candeeiro estava abrigado debaixo do toldo da Trigal a agitar um papel que apertava na mão como se fosse um leque espanhol, para afastar o calor que se fazia sentir. Alargou os colarinhos e clamou: “Vejam o que está aqui neste documento, é a conta da água. O Clube vendeu o abastecimento não sei a quem e o preço agora é o dobro! Desdobrou o papel e mostrou: “Onde era um 3 está um 6 e onde era um 7 está um 14”. O Luís Bastinhos, que não gasta água a vender roupa, zombou: “Se calhar é melhor. Se você quiser encher uma garrafa de água do Luso com água da torneira, já não ganha nada...”. -”oxa! Eu nunca fiz isso – respondeu o do Candeeiro – mas não dá mesmo, que a água da torneira está ao preço da água das termas, até já fui perguntar se há algumas aqui por perto”. “Por causa do aumento da água, já tive que subir o preço das barbas – resmungou o Acácio Queirós do Vale – cada ensaboadela fica em mais de vinte cêntimos”. “E eu, se calhar, também tenho que subir as bateiras de leitão e acabar com o pão de água”, disse o Joaquim da Trigal. “E é assim que querem dar qualidade de vida às populações!”, continuou o Natas da Sapataria, membro da Associação de Secos e Molhados. “Éé só ver passar gente de toalha às costas e sabonete na mão a caminho do rio. Já decidimos ir a Aveiro à companhia das águas reclamar do preço, isto é um desaforo!”.
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