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Centro virtual de vendas

por Redacção Soberania em Janeiro 11,2012

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Os afanosos, probos e pobres comerciantes de Águeda, como todos os outros, estão cobertos por um pano negro, tecido de concorrência e desproporcionalidade, impostos e taxas sociais, constrangimentos burocráticos e sentem-se aturdidos.
A direção da Associação de Secos e Molhados, atenta e preocupada,  para amaciar a severidade e o amargor do tempo, organizou um workshop com agentes económicos e trouxe cá o reputado economista americano Carlos Porter: “Tenho conhecimento da vossa preocupação legítima, pela dificuldade de venderem os vossos produtos, por terem nesta conjuntura o preço exponencial em virtude da estrutura macro-económica e a sua incidência na micro-economia e o seu reflexo nos custos de produção e financiamento, dada a crise endémica...”.
Imperava o silêncio e só se ouvia, de vez em quando, o som rouco de um bocejo, até que o presidente Castilho das Pompas Fúnebres, cerimoniosamente, pediu ao conferencista:
“Se não se importa, explique melhor, para nós compreendermos”.
“A partir da teoria revolucionária de Keins – continuou o Porter – o campo macro-económico implica o estudo e a necessidade de medidas de intervenção do Estado, para que haja emprego e desenvolvimento...”.
“E leva-nos tudo! – observou, com indignação, o Alberto Marquês, que há muito se balançava na cadeira – de tal modo que já há aqui quem pense, a exemplo do Pingo Doce, mudar-se para a Holanda”.
“Estou, na verdade, a pensar nisso – disse o Zé do Candeeiro, com convicção – a minha organização aqui não tem futuro, obrigam-me a passar faturas de tudo, se eu vender um rebuçado por cinco cêntimos, tenho que passar uma fatura que custa vinte; andam lá sempre os aferidores da balança, um quilo não pode pesar novecentos gramas, a ASAE não me deixa vender o bacalhau demolhado para pesar mais, comprei a máquina de endireitar bananas ao Brás dos Kiwis, mas não posso usá-la porque é contra e lei...”.
“Ó homem, deixe-se de lamentações que agora tudo passa a ser diferente -  informou o Natas da Sapataria, com ar grave – como estava a ser estudado, vai ser concretizado o centro virtual de vendas. Vocês podem estar com a porta fechada nos vossos estabelecimentos, apenas com atenção ao computador, que as encomendas vão lá chegar online!”.
Retomando a palavra, o  economista Porter olhou em volta e disse em tom professoral: “Vocês devem deixar o individualismo e a concorrência, organizem-se e constituam um grupo colaborante, isto é, os estabelecimentos devem organizar-se em rede, como se fosse uma só loja, aquilo a que se chama o Cluster.”
“Isso está bem – disse a Manuela dos Cacos –  o Zé do Candeeiro que vende os grelos, a soda, os melões e vinho bom e do batizado, deixa de vender pão, porque se associa ao Joaquim da Trigal. O Joaquim da Trigal que faz pão e bola de leitão, deixa de vender vinhos e aguardentes e associa-se à cooperativa que vende milho partido para os pintos e ração para os cães e deixa de vender farinha. E a Céu Rinodente deixa de vender guardanapos de papel e postais ilustrados e passa a vender papel para os cartuchos, o Acácio Queirós do Vale deixa de fazer penteados, passa só a cortar barbas, deixando os cabelos para o Cardoso Caprichoso...
“Isso não dá  - interrompeu em voz alta o Egberto das Canas, saltando da cadeira – enganam-se nas contas e ainda vai dar sarilho...
“Pois é – conclui o Porter – mas se não for assim em grupo, não pensem em mudar a sede para a Holanda”.


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