Querem substituir as laranjeiras por rosas vermelhas...
As cúpulas e as bases da Associação Comercial de Secos e Molhados reuniu de emergência, a pedido do atento e ativo e vogal associado Natas da Sapataria, que endereçou um apelo em escrito enviado ao presidente em que, em tom de alarme, pedia que acudissem a um crime ambiental. Convocados, acorreram os sócios pressurosos e apreensivos, sem saber o sentido de tal grito. O Natas subiu ao púlpito, tendo a seu lado o Vasco dos Vestidinhos e falou com os olhos intumescidos de raiva: “Na minha Rua, na Rua de Cima, gente insensível, crua, de coração empedernido e, ao que parece, a mando do Clube, arrancou, uma a uma, as laranjeiras que lá floresciam e que adoçavam, com seu perfume, o ar pesado das mercadorias que embolorecem com falta de procura”. “E também levaram as sombras que cobriam os bancos de jardim, onde se sentavam os viajantes cansados ou que ficavam ali em contemplação”, atalhou a Manuela dos Cacos. “Não sei agora onde é que hei-de sentar o meu pai...”. “E as avezinhas que pousavam nelas e faziam piu, piu!?”, interrompeu a Zezinha do Outeiro. “Não sei que aves eram, sei que eram pequeninas e não eram andorinhas, porque aquilo não é nenhum beiral...”. - “É legítima a vossa indignação“, observou, com convicção e voz cadenciada, o Gil Abredepois. “Querem destruir o ecossistema e querem, provavelmente, substituir as laranjeiras por rosas vermelhas. E uma das razões, penso eu, de as arrancarem, é porque lá foram postas pelo Clube laranja”. Tossicou e depois de um pequeno hiato, continuou: “Como toda a gente sabe e embora custe a alguns, depois da crise que vivemos, social, económica e financeira, em virtude dos PECs impostos pelo MFI e pelo FEEF da UE, vai haver eleições e tudo leva a crer que quem irá governar são mesmo os laranjas. Com medo de que as laranjeira servissem de propaganda, porque passa lá muita gente, o Clube, que é dos rosas, apressou-se a arrancá-las!”. “E fizeram muito bem – interrompeu o Paulo Rinodente- “Só serviam para ensombrar ainda mais as minhas lojas e nem víamos a rotunda...”. “Concordo com a sua posição”, disse o Joaquim da Trigal, que envergava um fato novo que alguém, por esquecimento, deixou na pastelaria e de que ele se apropriou, com as ombreiras um pouco caídas, as mangas a cobrirem-lhe as mãos, a calça pelo meio da perna e ainda com o cabide na mão. “As laranjeiras só estorvavam e as laranjas eram azedas. Uma vez tirei uma e só comi um gomo. Agora, sem as laranjeiras que só estavam ali a estorvar e a parecer mal, até me dá para estender a esplanada pela rua abaixo”. “Boa ideia – concordou o Acácio Queirós do Vale – traga a esplanada até à minha porta, que eu ponho a cadeira cá fora e os clientes até podem tomar um café enquanto cortam o cabelo!”. O Egberto das Canas, que se conservava calado mas mostrando indisfarçável nervosismo, ao ouvir aquilo, afirmou contrariado, elevando a voz: “Tudo o que aqui foi dito é insensato, só há uma maneira de resolver o problema dos comerciantes daquela rua, como venho a dizer repetidamente. Depois das laranjeiras, levem também os bancos e o pavimento, abram a rua ao trânsito nos dois sentidos e deixem passar tudo menos carros de bois”. “O que diz é um perfeito desconchavo – levantou-se, irritado, o Natas – então eu venho aqui pedir que reponham as árvores e você quer carros a passar?! Em vez do odor das flores das laranjeiras, quer o cheiro e a poluição dos escapes dos automóveis?! Se eu sabia, não o tinha chamado...”. Começaram a formar-se grupos de opinião na sala, de um lado os que queriam as laranjas, do outro os que queriam as rosas... Instalou-se o caos! E por fim chegaram à conclusão de que, afinal, não mandam nada e que quem decide é o Clube! O ex-comerciante Brás dos Kiwis, que também foi convocado, compôs esta poema popular: Tiraram as laranjeiras Contra a vontade do povo E o Joaquim da Trigal Estreou um fato novo! Foi o maior atentado Que já se viu E as avezinhas Nem podem fazer piu, piu!
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