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Aos costumes disse nada…

por Manuel José Homem Mello em Fevereiro 17,2010

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Independentemente do respeito que é devido à  terceira  entidade da hierarquia do Estado – o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça –os portugueses presenciaram, na passada semana, uma das piores e mais lamentáveis prestações televisivas que até agora lhes tinha sido dado assistir, desde o  dealbar da televisão na década de 60, até ao momento que passa...
Eu não conheço o senhor conselheiro Noronha do Nascimento, nem é provável que venha a conhecer.
Assim, nada do que aqui vou escrever pode ter qualquer conotação de ordem pessoal. A única informação que possuía de Sua Excelência tinha me sido fornecida pela eleição mas, sobretudo, pela reeleição para o mais alto posto da judicatura portuguesa.  Entretanto, foram-me chegando insuspeitas informações relativas ao rasto positivo que deixou por onde foi exercendo a judicatura, sem menosprezar a militância de esquerda que também deve ter contribuido significativamente para o êxito alcançado.
De acordo com este enquadramento, seria de esperar – e eu esperava, sinceramente – que o ilustre entrevistado aproveitasse o ensejo para, do alto da sua majestática posição, varrer de uma vez por todas os embróglios em que a Justiça portuguesa se deixou ensarilhar e que vai sendo tempo de resolver. Seria um alto contributo para a dignificação do Estado e prestígio da Justiça, que tão mal tratada tem sido nestes últimos tempos. E talvez pudesse dar uma ajuda para o regresso à serenidade sem a qual se torna impossível que o Governo trabalhe  porque  não poderá dedicar-se às tarefas que lhe incumbem desempenhar enquanto, a cada hora que passa, se vê na “obrigação” de vir a terreiro proclamar a inconcussa seriedade do engº. Sócrates e a dinâmica da acção governativa. Teria sido melhor que o senhor conselheiro ficasse mudo e invisível. Mas não valendo a pena chorar sobre leite derramado, façamos por esquecer o episódio.
Afinal, aconteceu  que nada aconteceu, bem pelo contrário.O senhor presidente do Supremo Tribunal de Justiça evidenciou  à saciedade que  não foi “moldado” para intervenções televisivas e a tal ponto que, ao fim e ao cabo,  tudo acabou por ficar ainda mais confuso e intrincado do que já estava.
A serenidade é tão necessária a quem governa como  o pão nosso de cada dia. Governar  com a espada de Damocles suspensa sobre as cabeças de quem tem por missão  a cada instante decidir é esperar demais para obter de menos. Um governo que esgota grande parte do tempo de trabalho a procurar defender-se dos ataques que lhe fazem e das cascas de banana que lhe atiram, não tem condições suficientes para trabalhar como deveria.  É um governo a prazo, ferido de morte. Por mais aliciante que seja o poder a ambição deve ..,ceder o lugar aos legítimos interesses que o povo confiou a quem o representa.
Quando na passada semana o senhor presidente do Supremo Tribunal de Justiça deu por esgotado o tempo que lhe era “ concedido” pela SIC (fora o tema   futebol e outro galo cantaria...) tive a sensação de ter assistido a um interrogatório ou depoimento feito na Pj com Noronha do Nascimento no papel de arguido «aos costumes disse...nada»  e  a jornalista travestida  de inquiridor. Uma Justiça  peculiar. Um Governo na corda bamba. Mísera sorte. Estranha condição.
n mjhm - Director honorário SP


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