LUÍS FILIPE SCOLARI
Está em curso, entre nós, uma empenhada campanha, porventura como jamais houvera outra, de reabilitação da imagem do ainda seleccionador nacional - Luís Filipe Scolari - já ferida de asa do último Mundial e, por ora, desfeita em farrapos após a fase de apuramento dos finalistas do Euro de 2008, da qual e até ao derradeiro segundo do jogo com os finlandeses, não libertara a “afficion” nacional do credo na boca.
Desse incómodo, que agudizar-se-ia com a recusa da explicação óbvia de Scolari do que terá acontecido, desde e entre os próprios atletas até ao autismo da equipa técnica, face, e sobretudo, à conotação qualitativa dos adversários com quem nos havíamos confrontado e a sorte favorecido já que plebeisticamente falando não passavam de “carregar pela boca”. E é desse silêncio confrangedor, do qual o pavor do assédio da comunicação social não terá sido despiciendo, muito terá contribuído para a esfarrapada fuga com que em tempo record se evadira no Brasil. E é daí, ou mais concretamente da cidade de São Paulo que em jornal diário de grande difusão nos dá conta da tranquilizadora notícia: regressará a Portugal para cumprir o que resta do seu contrato, obviamente na fase final do Euro, do início do próximo Verão, a que entretanto, com aparente despropósito aliara a profunda convicção, quiçá, nem que a santa da sua devoção voltasse à terra, jamais refaria, qualquer outro contrato com a Federação Portuguesa de Futebol. Algum tempo depois, já de regresso à lusa terra, é com a mesma sinceridade e amor à verdade já reveladas no célebre e recambolesco episódio com que a soco tratara do atleta sérvio, surpreende, porém, tal masculinidade bem conhecida como imagem de marca tenha, porém, resvalado para essa cândida manifestação de feminilidade, que se julgava exclusiva do outro sexo, ao alimentar-se agora do contrário daquilo que diz, ou dissera em tempo, com total empenhamento da sua palavra. Ou seja, dando o dito por não dito, é já de mãos dadas e na paz dos padrinhos que, de forma recorrente e em conjunto, desenterram o velho slogan da vitória já no próximo Europeu, ou, em alternativa, no mundial seguinte, com que entre o aturdimento e a ilusão se pretende continuar a alimentar esse pavoroso equívoco que entre nós é conhecido de opinião pública. O que me sugere adaptada da célebre quadra de Fernando Pessoa: Scolari é um fingidor. Mente tão sinceramente. Que finge sentir que é dor. A dor que deveras sente. E porque essa mais não é que o pressentimento do risco de, doravante, deixar de poder usufruir das discricionárias regalias com que vem construindo a sua principesca reforma e a do inumerável rancho dos seus colaboradores, directos e indirectos, tudo isso será posto em causa sobretudo pela vergonha que ao que parece não tem nem poderá sentir, mas que bem mais cedo do que se poderá pensar alguém por ele a terá de assumir! Desde logo, e sobretudo, tendo em conta o jogo com a Itália, cujo resultado e exibição não podem deixar de ser verdadeiramente alarmantes, daqui se lança o repto à ponderação efectiva de uma liderança que em nenhuma circunstância poderá ser subvertida. Para um bom entendedor... e o Dr. Madaíl sê-lo-á, tanto mais quanto em tempo record, souber distinguir, do que é meramente acessório, o essencial! Termino este apontamento, socorrendo-me da poesia de Manuel Alegre, e da Trova do Vento que Passa, retirando-lhe uma frase que nunca como agora, porventura, terá tido mais actualidade: «Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!»
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