Futebol: A paixão não se explica!...
PERGUNTARAM UM DIA a um grande toureiro espanhol qual o segredo da sua arte. Ele respondeu: “A arte não se explica”. O mesmo se diga da paixão. De onde vem a minha pelo futebol? Podia recorrer à influência da família: o meu avô Mário Duarte, eleito, num plebiscito do jornal “Os Sports”, como o mais completo desportista português e que, com o seu amigo Guilherme Pinto Basto, foi um dos introdutores do futebol em Portugal; de meu pai, Francisco Duarte, que jogou na Académica, além de campeão noutras modalidades; de meu tio, embaixador Mário Duarte, um dos fundadores do Belenenses e seu primeiro guarda-redes. Tudo isso contou. Mas não tanto como os jogos do Recreio Desportivo de Águeda, no velho campo de São Sebastião. Paixão sofrida, por isso mais intensa, já que o Recreio raramente ganhava. Mas eu conhecia-os a todos: eram alfaiates, merceeiros, canalizadores, chapeleiros, etc., que jogavam por amor à camisola. Para já não falar nos desafios no Largo do Botaréu, com bola de trapos, entre os da vila e os das aldeias em volta, quase todos descalços, uns poucos - entre os quais eu próprio - de sapatos. Vieram depois as idas a Coimbra, para ver a Académica. Outra paixão intensa, porque também quase sempre de sofrimento. Era ainda uma oportunidade para ver as celebridades dos grandes clubes, nesse tempo em que não havia televisão. Havia a rádio. E talvez eu deva a minha paixão a um grande locutor, hoje esquecido, Alfredo Quádrio Raposo. Ouvia-se às sete da tarde, resumo da primeira parte, relato da segunda. Só os jogos da selecção eram em directo. Ele relatava e nós víamos o jogo. Escusado será dizer que a selecção foi outra paixão de sofrer: Portugal ataca e a Espanha marca. Mais tarde, Coimbra, a grande e definitiva paixão: a Académica. Os jogadores, quase todos estudantes, alguns já formados, entravam em campo de capa traçada. E nós entrávamos com eles. Não era só um clube de futebol, era uma cultura, uma afectividade, um modo de ser e conviver. Só no exílio eu descobri outra paixão, o Benfica. Talvez pelo Eusébio, talvez pelo elo de ligação que o Benfica estabelecia entre a pátria do exílio e a pátria de dentro. Para além da dimensão desportiva, o Benfica tinha também essa dimensão social e afectiva. Veio o Mundial de 1966, a selecção restituiu-nos parte do orgulho ferido, andámos todos de quinas ao peito. É certo que a ditadura utilizou o futebol. Mas talvez em democracia ele esteja a ser utilizado ainda mais, até pelos meios atuais - canais de televisão, Sport TV, canais de clubes, etc. Creio que hoje se gosta mais do futebol falado e discutido na televisão do que do futebol jogado. Não partilho essa paixão pervertida. Há clubite a mais, manipulação e exagero. Estádios vazios, televisão cheia. Comentários a mais, futebol a menos. Às vezes tenho saudades do Alfredo Quádrio Raposo, do resumo da primeira e do relato da segunda parte. Havia paixão na voz e havia paixão em quem ouvia. Será que os portugueses ainda gostam de futebol? Às vezes, parece-me que tem mais interesse pela discussão do dia seguinte do que propriamente pelo futebol que se jogou. Agora vem aí o Europeu. Estarei, como sempre, pela selecção, embora Portugal seja o país em que se confere ao seleccionador um poder quase absoluto. Não gosto que me obriguem a concordar com o que não concordo e não compreendo que os meios de comunicação, sobretudo os desportivos, se sintam na obrigação de não criticar o que na selecção e no seleccionador é criticável. Ricardo Carvalho e Bosingwa estão em parte por explicar. Qualquer dia, há um problema com o Nani. E depois com Ronaldo. Talvez haja quem goste de ter uma selecção sem foras de série, sem craques e sem talento. Mas são eles que fazem a diferença. E se algo fomenta a paixão pelo futebol é a surpresa e o inesperado de que os Ronaldos e os Messis são capazes. A tal arte que não se explica, como dizia o toureiro. E é talvez o segredo do futebol.
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