As páginas negras dos cadernos do medo
Estou particularmente à vontade para escrever as linhas que se seguem. E estou-o porque, imediatamente após o jogo contra a Coreia do Norte, a que tive oportunidade de assistir na Cidade do Cabo numa tarde de chuva, enviei para Lisboa um artigo que foi publicado com o título «A Verdade da Mentira». A despeito da gorda vitória por 7-0, nada me fazia acreditar no futuro da Selecção Nacional no Mundial sul-africano. Por diversas razões que sublinhei a devido tempo: 1) - Existência de um ambiente pouco saudável no grupo da selecção (e uma selecção, como uma equipa, não é apenas composta por jogadores e treinadores); 2 ) - Desconfiança de alguns dos jogadores mais antigos em relação ao seleccionador, que minava a autoridade deste; 3) - Claros equívocos de Carlos Queiroz, que forçaram Portugal a perder um «estilo», algo de fatal para uma equipa que não tinha comparação qualitativa com as de 2004 e 2006. Citei Octávio Machado para dizer «sei do que falo». E como o escrevi e publiquei num momento de euforia, fiquei desde logo liberto do estigma do oportunismo. Tivesse a Selecção Nacional vencido a Espanha e nada se alteraria. O problema é bem profundo e vem de longe. Começou antes do Euro-2008 e na forma como algumas pessoas na Federação Portuguesa de Futebol trataram de isolar Luiz Felipe Scolari. Depois do Mundial-2006, uma guerra surda de protagonismos dentro da FPF minou o trabalho de Scolari, retirando-lhe ou minimizando os apoios que tinha na estrutura da selecção. As traições foram grandes e graves. A maior de todas, na mesma noite do jogo frente à Sérvia: aproveitando a agressão do seleccionador a um jogador sérvio, a direcção da FPF reuniu-se de emergência com um conhecido empresário e pôs na mesa de José Mourinho um convite de verbas chorudas para que este aceitasse treinar Portugal de imediato e só para a fase final do Euro-2008. Depois, forçariam Scolari a demitir-se. Mourinho não aceitou e Scolari não se demitiu. E a confiança morreu. Scolari era um homem só. E a prazo. Com as consequências anímicas visíveis no Euro-2008. Foi já num ambiente de fracturas que Carlos Queiroz veio cair. E dentro do leque de competências do actual seleccionador a capacidade de aglutinação não será propriamente uma das mais fortes. Esperaria, quem observa com mais atenção o que se tem passado na Selecção Nacional, que com a autoridade que lhe foi posta nas mãos - um contrato por quatro anos, caso inédito! - que Queiroz afastasse desde logo algumas pessoas do staff com as quais tivera conflitos no consulado de Scolari. Foram cortadas cabeças menores. Apenas. Talvez tenha sido esse o seu primeiro equívoco. Outros se seguiram. A verdade é que se Portugal se apresentou no Campeonato do Mundo com ilusões desmesuradas em relação à qualidade da equipa que tinha, isso se ficou a dever a um discurso ambicioso como há muito não se via. Um discurso ambicioso que nunca teve correspondência ao futebol medroso que a selecção levou para os relvados. Quem veio dizer que Portugal tinha ambições e capacidade para ser campeão do Mundo foi o seleccionador - ainda na véspera do jogo com a Espanha, confrontado com a questão de Ronaldo não ter vencido qualquer título esta época, respondeu, desassombradamente, que a época não tinha acabado. Quem lançou o repto de que chegara a hora de deixar de ir a finais e meias-finais para passar a ganhar títulos foi o seleccionador. Quem afirmou claramente que se tivesse continuado na Selecção Nacional depois de 1994 já Portugal tinha sido campeão do Mundo foi o seleccionador. Ora, este discurso pode ser motivante para alguns, pode demonstrar uma certa coragem, mas é absolutamente vazio de significado. Portugal apresentou no Mundial de 2010 praticamente a mesma equipa base do Europeu de 2008. O que também nos faz pensar sobre a nova política de prospecção que Queiroz estava para trazer para a selecção depois do «terrível deserto de Scolari», como ladram os Ruis Moreiras Santos de Sousa Tavares nas suas pseudo-catilinárias. Da base da equipa que esteve na África do Sul, a única grande «descoberta» de Carlos Queiroz para a equipa de Portugal foi
Fábio Coentrão, chamado já à última hora. De resto, tudo sobra do tal «deserto de Scolari», até, imagine-se, o ressuscitado Ricardo Costa. No final do jogo com o Brasil, o destino da Selecção Nacional ficou traçado. Cristiano Ronaldo, que fora obrigado a correr como um louco durante hora e meia atrás de bolas despachadas à trouxe-mouxe pelos dez outros companheiros que nunca saiam do seu próprio meio campo, correu para os balneários sem sequer fazer a festa do apuramento para os oitavos-de-final. Percebera, claramente, que este não seria o seu Mundial. O que o seleccionador lhe pedia era sobre-humano: ser ele, e só ele, o responsável por todas as acções ofensivas da equipa. E quando, nas bancadas do estádio de Durban, ainda ouvi aquelas bem lusitanas frases de desagrado - «Ó Ronaldo! Passa a bola!» - apetecia-me perguntar: mas para quem há-de o rapaz passar a bola se vagueia lá na frente sozinho, como um náufrago em mar encapelado? Quando no fim do jogo com a Espanha soltou o seu desabafo - «Perguntem ao Carlos Queiroz» - que tanto desagradou a certos politiqueiros da bola quadrada, já tinha dado resposta dentro do campo com aquela súplica para o banco aquando da substituição de Hugo Almeida - «Assim não ganhamos, Carlos!» Pois não. Não ganhamos. Nem sequer conseguimos não perder. Portugal dos últimos dez anos foi sempre alegre, colorido, criativo. Até no momento das derrotas, houve festa. Porque havia em redor da selecção uma aura de garra e de vontade e de capacidade para ir além das contrariedades que entusiasmava os adeptos. Portugal saiu do Mundial e não deixou saudades. Nem mesmo à maior parte dos portugueses que não se revêem nesta selecção do medo. E o pior é que, como a ama daquele velho conto da nossa infância, se houver um menino que nos peça - «Vai à janela e diz-me: há mundo lá fora?» - não saberemos responder-lhe.
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