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Futebol: Portugal já não é sequer a melhor equipa da Península Ibérica

por AFONSO DE MELLO em Julho 14,2010

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Durante anos os espanhóis tiveram inveja de nós. Entre 2000 e 2006, ao mesmo tempo que a selecção portuguesa conquistava meias-finais dos Campeonatos da Europa e do Mundo e atingia a final do Euro-2004, a Espanha afundava-se na habitual mediocridade das suas presenças nas grandes competições internacionais.
Em 2006, durante o Campeonato do Mundo da Alemanha, escreviam-se nos jornais espanhóis artigos sarcásticos sobre qual a verdadeira selecção representante da Península Ibérica no Mundial. «Portugal», anunciava-se. «Só Portugal pode transmitir a certeza e confiança de lutar até ao fim e não se ver corrido pela porta baixa, como sempre acontece com a Espanha em competições como esta».
Os espanhóis – eles todos, bascos e catalães, galegos e estremenhos – não tiveram dúvidas no seu iberismo, apoiando Portugal.
Portugal era a melhor equipa deste canto da Europa, assumia-se sem rebuço como o representante da Península Ibérica nesta guerra mundial disputada de outra forma que é um Campeonato do Mundo, como diz Luís Fernando Veríssimo.
O tempo passou. Em Portugal o tempo passa geralmente contra nós e não a nosso favor.
Na África do Sul, Portugal foi um país em «inho».
Depois da derrota da Holanda na final do Mundial, o grande Johann Cruyff, o «inventor» da selecção holandesa de 1974 à qual ainda nos liga uma profunda nostalgia, escreveu num jornal catalão:
«Na quinta-feira, perguntaram-me da Holanda: Podemos jogar como o Inter? Podemos travar a Espanha da maneira que Mourinho eliminou o Barça? Disse que não, de forma alguma. E disse-o, não porque deteste esse estilo, mas porque pensei que os meus não se atreveriam e que não renunciariam ao seu estilo. Equivoquei-me. Não quiseram a bola e, lamentavelmente, tristemente, jogaram muito sujo. Tanto que mereciam ter terminado com nove desde cedo, pois houve duas entradas feias e duras que até a mim me doeram».
Para Cruyff a renúncia da Holanda às origens determinou a condenação. «Esse estilo feio, desprezível, duro, hermético, pouco vistoso, pouco futebolístico (certo que é uma maneira de jogar e até de ganhar, mas não a defendo), serviu à Holanda apenas para enervar a Espanha».
É esta a questão que devemos colocar.
No fundo, Cruyff falou da Holanda mas poderia estar a falar de Portugal. «Estilo feio, desprezível, duro, hermético, pouco vistoso, pouco futebolístico».
Foi isto que Portugal exibiu na África do Sul. E com isso perdeu o respeito dos adeptos.
Recordem-se: em 2006, Portugal venceu o prémio da crítica popular, dos adeptos que votaram um pouco por todo o Mundo: «The Most Exciting Team!» A equipa mais entusiasmante!
Felizmente, em 2010, não havia prémio para a «The Borest Team», porque facilmente Portugal poderia ter chegado na frente da classificação.
Escrevi nestas páginas que a verdadeira luta desta nova Selecção Nacional, que passou das mãos de Luiz Felipe Scolari para as mãos de Carlos Queiroz, era com o… duende.
O duende. Lembram-se do duende? Garcia Lorca: «Teoria e Prática do Duende». Um texto extraordinário no qual fala de «um poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica». E citando Goethe que falava de Paganini, dizia: «Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar. Eu ouvi um velho violinista dizer: “O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés».
Esta selecção nacional não tem duende. Não tem duende nem organização interna, nem alma, nem princípios que a façam ser como as de 1966, 2004 e 2006 verdadeiros desígnios nacionais.
Não tem força para além das suas fraquezas, nem talento que consiga dobrar essas fraquezas.
É apenas um navio à deriva sem bússola que lhe permita descobrir um cais.
n AFONSO MELO

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