Futebol: Portugal já não é sequer a melhor equipa da Península Ibérica
Durante anos os espanhóis tiveram inveja de nós. Entre 2000 e 2006, ao mesmo tempo que a selecção portuguesa conquistava meias-finais dos Campeonatos da Europa e do Mundo e atingia a final do Euro-2004, a Espanha afundava-se na habitual mediocridade das suas presenças nas grandes competições internacionais. Em 2006, durante o Campeonato do Mundo da Alemanha, escreviam-se nos jornais espanhóis artigos sarcásticos sobre qual a verdadeira selecção representante da Península Ibérica no Mundial. «Portugal», anunciava-se. «Só Portugal pode transmitir a certeza e confiança de lutar até ao fim e não se ver corrido pela porta baixa, como sempre acontece com a Espanha em competições como esta». Os espanhóis – eles todos, bascos e catalães, galegos e estremenhos – não tiveram dúvidas no seu iberismo, apoiando Portugal. Portugal era a melhor equipa deste canto da Europa, assumia-se sem rebuço como o representante da Península Ibérica nesta guerra mundial disputada de outra forma que é um Campeonato do Mundo, como diz Luís Fernando Veríssimo. O tempo passou. Em Portugal o tempo passa geralmente contra nós e não a nosso favor. Na África do Sul, Portugal foi um país em «inho». Depois da derrota da Holanda na final do Mundial, o grande Johann Cruyff, o «inventor» da selecção holandesa de 1974 à qual ainda nos liga uma profunda nostalgia, escreveu num jornal catalão: «Na quinta-feira, perguntaram-me da Holanda: Podemos jogar como o Inter? Podemos travar a Espanha da maneira que Mourinho eliminou o Barça? Disse que não, de forma alguma. E disse-o, não porque deteste esse estilo, mas porque pensei que os meus não se atreveriam e que não renunciariam ao seu estilo. Equivoquei-me. Não quiseram a bola e, lamentavelmente, tristemente, jogaram muito sujo. Tanto que mereciam ter terminado com nove desde cedo, pois houve duas entradas feias e duras que até a mim me doeram». Para Cruyff a renúncia da Holanda às origens determinou a condenação. «Esse estilo feio, desprezível, duro, hermético, pouco vistoso, pouco futebolístico (certo que é uma maneira de jogar e até de ganhar, mas não a defendo), serviu à Holanda apenas para enervar a Espanha». É esta a questão que devemos colocar. No fundo, Cruyff falou da Holanda mas poderia estar a falar de Portugal. «Estilo feio, desprezível, duro, hermético, pouco vistoso, pouco futebolístico». Foi isto que Portugal exibiu na África do Sul. E com isso perdeu o respeito dos adeptos. Recordem-se: em 2006, Portugal venceu o prémio da crítica popular, dos adeptos que votaram um pouco por todo o Mundo: «The Most Exciting Team!» A equipa mais entusiasmante! Felizmente, em 2010, não havia prémio para a «The Borest Team», porque facilmente Portugal poderia ter chegado na frente da classificação. Escrevi nestas páginas que a verdadeira luta desta nova Selecção Nacional, que passou das mãos de Luiz Felipe Scolari para as mãos de Carlos Queiroz, era com o… duende. O duende. Lembram-se do duende? Garcia Lorca: «Teoria e Prática do Duende». Um texto extraordinário no qual fala de «um poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica». E citando Goethe que falava de Paganini, dizia: «Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar. Eu ouvi um velho violinista dizer: “O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés». Esta selecção nacional não tem duende. Não tem duende nem organização interna, nem alma, nem princípios que a façam ser como as de 1966, 2004 e 2006 verdadeiros desígnios nacionais. Não tem força para além das suas fraquezas, nem talento que consiga dobrar essas fraquezas. É apenas um navio à deriva sem bússola que lhe permita descobrir um cais. n AFONSO MELO
1078 vezes lido
|