Clube da Venda Nova: Almoça com a capital e à noite manda falar para o povo
Os eleitos daAssembleia do Clube, à hora marcada, compenetrados dos seus deveres de defender os superiores interesses dos que os elegeram em campanhas difíceis, reuniram no salão nobre, para discutirem e aprovarem o orçamento e plano. Sentaram-se nos cadeirões macios, esfregaram os olhos para se manterem acordados e atentos, depositaram nas pranchetas das cadeiras os documentos que lhes foram distribuídos, donde constam relatórios, contas feitas, projectos de contas, títulos, secções, rúbricas e sub-rúbricas, que foram folheando, virando e revirando. A sessão estendeu-se pela noite dentro, com intervenções vindas das várias bancadas e do presidente Gil Pedalais, que foi prestando os esclarecimentos que lhe pediram e outros que ninguém lhe pediu. “Antes de mais, espero que este orçamento esteja certo, que não aconteça como no da Junta de Águeda”, disse o Figueiredo Parado, atrás do púlpito. E acrescentou: “E tenho a dizer-lhe, senhor presidente, que o senhor parece o Sócrates, que almoça com o capital e à noite manda falar para o povo e eu, como social-democrata, entendo que o senhor devia estar sempre a falar só para o povo, mas que tenha capital, o outro só dá despesa e dá cabo do orçamento!”. “Por falar em Orçamento e no presidente Gil Pedalais - interrompeu o João Val de Reira - o que ressalta desta resma de papéis e pelas obras anunciadas, é que parece o programa eleitoral do PS, bem elaborado para a campanha de Outubro”. “Este orçamento não merece o mínimo reparo“, disse, com veemência, o socialista José Vidigal - as obras são para fazer, não há promessas para não cumprir, gasta-se o dinheiro com parcimónia, não é como os orçamentos laranjas, que eram verdadeiramente estratosféricos, quer dizer, de uma camada muito próxima do ozono e do respectivo buraco...”. No final dos trabalhos, a horas mortas, ouviu-se a voz lamurienta e embargada da Atleta Olímpica, antiga funcionária do Clube, que se queixou: “O Clube não presta atenção aos antigos funcionários e querem deixá-los morrer de inanição. O senhor presidente pretende que venhamos cá pedir uma esmola, é isso?”. O presidente Gil Pedalais, constrangido, respondeu: “Não temos nada nos cofres para lhe dar. Tenha paciência e vá com Deus!...”.
*** * *** No Regote, em largo espaço alindado com camélias bravas e flores silvestres, em mesas redondas com toalhas de linho, talheres de prata e guardanapos de papel, algaraviaram muitos convidados pela Soberania, para festejar o seu 130º. aniversário. Ao fundo, numa mesa comprida de topo, sentaram-se os honoráveis, escolhidos pelo director Silva dos Farolins, que iniciou a série de discursos, antes de passar a palavra ao dr. Paulo Assucena e a outros, dizendo, além do mais: ”Este jornal foi fundado por pessoas do partido progressista. Hoje também há progressistas mas não são como os de antigamente, que eram monárquicos, de bandeira azul e não vermelha como os de agora. Não quero, porém, chamar-lhes regressistas, mas não gosto do nome.” Outros discursos se seguiram, incluindo o do Eleutério Costa Nova, que saiu das mesas redondas e disse: ”Eu sou presidente da Assembleia do Recreativo do Redolho, grande associação deste concelho, pelo que devia estar sentado nessa mesa de honra, não o digo, mas penso!...”. A certo momento, levantou-se com uma coxa de leitão na mão, a fechar, o Jorge Enfermeiro, em representação do Clube e, tremente, tartamudeou: ”Se há coisas com que eu vibro é com aniversários de alguém que faz 130 anos! Nem sei o que hei-de dizer, porque não assisti à nascença deste jornal e já o apanhei velho. Estou tão feliz, comi tão bem e estive tão bem acompanhado, que desejo que este jornal faça 130 anos muitas vezes!...”.
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