Clube da Venda Nova: Se ele tapasse o buraco do orçamento é que era bom
O Gil Pedalais reuniu com o executivo do Clube, no seu gabinete aveludado, e, depois de se acomodarem, começou a falar, como que em murmúrios, a olhar o tecto. “Neste tempo de egoísmo feroz e crise de valores, ainda há gente boa e generosa, altruísta...”. “Mas está a falar de quê? “, perguntou a Excelsa da Corga, surpreendida. “De onde lhe vem esse entusiasmo?”. “Ora, não se lembra?, continuou o Pedalais, sacudindo o corpo como se estivesse a acordar. “Não se lembra o que aconteceu na última reunião do Clube, aquele homem do Casaínho, Manuel Ourives, que se ofereceu para vir trabalhar como voluntário para a comunidade?”. “Ah! Aquele benfeitor que disse que queria tapar os buracos das estradas do município?!”, murmurou o João Piedoso. “Mas não é só o que ele vai fazer”, acrescentou o Pedalais. “É também o movimento de voluntariado local que se vai criar, sensibiliza todas as pessoas do concelho! Tapar buracos, limpar valetas, cortar silvas, desentupir canos e sarjetas...”. “Ora, se ele tapasse o buraco do orçamento é que era bom!”, adiantou o Brito Redentor a olhar de soslaio para o Jorge Enfermeiro. “Também é a pensar nisso, podemos poupar muito dinheiro em mão de obra, embora não possamos despedir ninguém, nem que estejam a mais“, continuou o Pedalais. “Mas isso será bom se não tivermos que emprestar o equipamento, as pás, as enxadas, os carros-de-mão, que ainda nos podem ficar com eles e vai-te embora lucro, que dás perca”, disse, céptico, o Jorge Enfermeiro, frisando: “Temos que repensar bem isso”.
*** * *** O Salão da Junta de Aguada de Cima foi asseado para receber a comunicação social numa conferência de imprensa convocada para divulgar o programa cultural que vai estender-se em iniciativas que decorrerão entre 5 e 31 de Julho, denominadas “Julho Cultural”. Ao fundo, numa mesa larga, adornada com um ramo de flores silvestre - pampilhos, malmequeres e carqueja do Gorgulhão - sentaram-se o presidente Heitor Carapuço, ladeado por Acácio Encosta e Rogério da Batuta. O Presidente Carapuço teve que se levantar, porque não se via atrás das flores e, a esfregar os olhos por alergia aos pampilhos, disse num improviso escrito: “É com grande alegria que vos anuncio que Aguada de Cima, neste verão, vai virar-se para a cultura. Não é, como muitos pensaram quando leram o manifesto, para cultura da batata, do feijão ou das melancias, mas das coisas do espírito. Vamos ter música, teatro, até estamos a ensaiar uma contra-dança...”. ”... E danças de roda, já que não se cultiva o ballé, os nossos idosos andam muito entusiasmados”, atalhou o Acácio Encosta, frisando que “Aguada de Cima não pode viver só da festa das Almas ou do S. Roque, temos que pôr toda a gente a dançar”. “Vamos também ter música erudita. Estou a pensar numa orquestra de câmara”, disse o Rogério da Batuta. “Só se for da Câmara de Águeda!”, laracheou o jornalista Jorge Gosta. “E a fechar o programa – continuou o Rogério – vamos apresentar um programa de música lírica com o Carreras ou o Plácido Domingo...”. “Ora, ora, nunca ouvi falar nesses artistas - interrompeu, gaguejante, o presidente Heitor Carapuço – já que queremos um programa cultural, gastava-se mais alguma coisa e trazíamos cá o Toni Carreira ou a Mónica Cintra”.
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