E isto não é para comprarmos submarinos
Noite amena, mais uma assembleia do Clube. “Senhores co-deputados ou co-membros, como queiram, boa noite e se alguém adormecer, que tenha bons sonhos”, disse o presidente Celestino de Almada, a abrir a sessão. Continuou com ar sério e grave, em tom marcado de tribuno do alto do estrado. “Temos hoje aqui para discutir questões de grande interesse para os cidadãos e para o país”. Pigarreou, suspendeu a fala por momentos, centrou a gravata rosa entre os colarinhos azuis e e continuou: “Vamos debater taxas e impostos, carga de que ninguém gosta e muito menos eu, mas atendendo à falta de dinheiro do Clube...”. “Se é de subida , nem queremos ouvir falar nisso”, interrompeu o António Martírios, com agressividade. “Vocês que representam o poder cá, são como os de Lisboa, só pensam em ir aos bolsos da pobre gente que anda andrajosa”, disse o José Oliva, acrescenatndo: “Andam a gastar dinheiro em obras inúteis, que até me causam enjoos e... não estou grávido!”. “Mas essas obras constituem um investimento público indispensável à baixa do desemprego”, esclareceu o Jorge Enfermeiro. “Lembrem-se que o Clube é o maior empregador do concelho”. “Pois é, mas tem que atender a que está numa situação económica difícil, próxima da bancarrota”, observou o Hilariante Santos, com um caderno e uma esferográfica na mão. E disse mais: “Zero por cento de PIB, porque nada produz, déficit de cem por cento e se não se acautelam chega aos cento e cinquenta, as empresas de rating e notação a atacarem e a impor juros altos, as aplicações financeiras em baixa, as despesas correntes em alta, nem para obras particulares...” “Está a ser catastrofista, não é assim tanto”, disse o Gil Pedalais, com aparente serenidade. “Nós esperamos que as empresas se desenvolvam e as pessoas ganhem dinheiro para nos pagar, porque temos que ir buscar receitas a algum lado, pelo menos para as despesas correntes. Por isso propomos que se suba o IMI e a derrama...”. “E isto não é para comprarmos submarinos”, comentou a Excelsa da Corga. E mais: “Quando muito, vamos comprar um barco para os turistas que nos visitam”. “Nem para isso – atalhou o Zé Oliva, com vigor. “Têm é que baixar a despesa em vez de aumentar os impostos, porque em Lisboa já tiraram cinco por cento aos salários, deixaram de andar de carro, andam a pé e usam papel reciclado...”. Entretanto, as horas foram passando, muitos deputados, vencidos pelo sono e pelo cansaço, abandonaram a sala. A concluir, o Gil Pedalais, disse com ar de súplica: “Peço-vos por favor que votem a subida das taxas e dos impostos. Têm que considerar o momento de aflição que atravessamos, que até pode levar à perda da independência do nosso concelho. Seria muito mau que o FMI ou o Banco Central Europeu viessem para aqui instalar a sua sede”. Poeta Catula, que estava na galeria, escreveu um poema que leu lá de cima: Por aquilo que ouvi E pelo que me pareceu Vão subir o IMI Ou então vem o FMI E o Banco Europeu E quem se lixa sou eu!
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