Perdoar, talvez ,esquecer nunca!
Faltaria à verdade se não deixasse umas linhas de louvor ao discurso que o secretário geral do Partido Comunista proferiu no encerramento da última Festa do Avante Porque desejo ser sincero, não fugirei à dificuldade. Jerónimo de Sousa fez um bom discurso sim senhor . O que obviamente não significará a menor obrigatoriedade de com ele concordar e muito mais aplaudir… ( Não exageremos, todavia; foi um bom discurso se atendermos sobretudo à iletaricio de quem o leu.) A qualidade de uma peça oratória mede-se, sobretudo, pelo conteúdo e não pelo eventual apuro de forma. Não fora assim e teríamos que nos contentar com o invólucro do que se disse, considerando secundária a substância do que foi dito. Ora a beleza formal importa muito menos do que a mensagem que se pretendeu transmitir, antes pode ser cúmplice do ludíbrio que a qualidade formal venha a ser considerada como responsável pelo que de menos bom viesse a acontecer . O caso do discurso da Quinta da Atalaia é paradigmático. Quem o tenha escutado com o mínimo de atenção dificilmente terá podido esquecer o abismo verificado entre as palavras pronunciadas agora e os actos praticados anteriormente. Ou, por outras palavras, o abismo entre a verdade e a hipocrisia, entre o que se dizia que era mister fazer e o que, na realidade, era ou foi realizado. Efectivamente, arvorar em mentor da liberdade, da igualdade e da fraternidade um sistema que reduziu a primeira à escravatura, a segunda às castas «numenkla turiais » e a última ás diferenças entre dominados e dominadores, até poderá pronunciar, ou encomendar, que lhe façam bons discursos, mas o que jamais conseguirá há-de ser dar o dito pelo feito, transformando a mentira na verdade, metamorfoseando a ditadura em democracia. Quem tenha lido, ou ouvido, com algum cuidado o, aliás, demasiado longo discurso de Jerónimo de Sousa e tenha procurado esquecer e abstrair o que estava a ser dito e por quem o estava a dizer há-de ter detectado um inaceitável desrespeito e uma confrangedora ignorância imprópria de um dirigente político . Quando se ouve esse principal responsável apresentar-se como garante e paladino da liberdade e penhor da democracia , dirigente de um partido que nunca levantou a voz contra a actuação anti-democrática da União Soviética e que aprovou os expurgos políticos, os exílios, o Goulag, a teoria da soberania limitada, etc. etc, um partido sob a égide do qual se formou, na base do terror, o maior império até hoje constituído; um partido como este poderá dizer tudo o que lhe apeteça e da forma que lhe mais lhe pareça conveniente mas há-de sempre padecer de autoridade moral para impor aos demais que ouçam o que diz mas não façam o que faz. É simplesmente impossível que possa haver cumplicidade entre dois sistemas, cujas géneses são diametralmente antagónicas. Nem o azeite consegue misturar-se com a água (mesmo sem risco de explosão), nem ainda menos o nitrogénio com o nitrato de prata - que essa mistura, sim, pode levar tudo pelos ares. Poderemos ser capazes de perdoar. Mas ser- -nos-á impossível esquecer. n M. J. HOMEM DE MELLO Director Honorário de SP
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