Perdoar, talvez ,esquecer nunca!
Sep 18,2008 00:00 by MJHMello
Faltaria à verdade se  não deixasse umas linhas de louvor  ao discurso que o secretário geral do Partido Comunista proferiu no encerramento da última  Festa do Avante
Porque desejo ser sincero, não fugirei à dificuldade. Jerónimo de Sousa fez um bom discurso sim senhor . O que obviamente não significará a menor obrigatoriedade de com ele concordar e muito mais  aplaudir… ( Não exageremos, todavia; foi um bom discurso se atendermos sobretudo à iletaricio de quem o leu.)
A qualidade de uma peça oratória mede-se, sobretudo, pelo conteúdo e não pelo eventual apuro de forma. Não fora assim  e teríamos que nos contentar com o invólucro do que se disse, considerando secundária a substância do que foi dito.     
Ora a beleza formal importa muito menos do que a mensagem que se pretendeu transmitir, antes pode ser cúmplice do ludíbrio que a qualidade formal venha a ser considerada  como responsável pelo que de menos bom  viesse  a acontecer .  
O caso do discurso da Quinta da Atalaia é paradigmático.
Quem o tenha escutado com o mínimo de atenção dificilmente terá podido esquecer o abismo verificado entre  as  palavras pronunciadas agora e os actos praticados anteriormente. Ou, por outras palavras,   o abismo entre a verdade e a hipocrisia, entre o que se dizia que era mister fazer e o que, na realidade, era ou foi realizado.
Efectivamente, arvorar em mentor da liberdade, da igualdade e da fraternidade um sistema que reduziu a primeira à escravatura, a segunda às castas «numenkla turiais » e a última ás diferenças entre dominados e dominadores, até poderá pronunciar, ou encomendar,  que lhe façam bons discursos, mas o que jamais conseguirá há-de  ser dar o dito pelo feito, transformando a mentira na verdade, metamorfoseando a ditadura em democracia. Quem tenha lido, ou ouvido,  com algum cuidado o, aliás, demasiado longo discurso de Jerónimo de Sousa  e tenha procurado esquecer e abstrair o que estava a ser dito e por quem o estava a dizer há-de ter detectado um inaceitável desrespeito e uma  confrangedora ignorância imprópria de um dirigente político .
Quando se ouve esse principal responsável  apresentar-se como garante e paladino da liberdade e penhor da democracia , dirigente de um partido que nunca levantou a voz contra a actuação anti-democrática da União Soviética e que aprovou os expurgos políticos, os exílios,  o Goulag,  a teoria da soberania limitada, etc. etc, um partido sob a égide do qual se formou, na base do terror, o maior império até hoje constituído; um partido como este  poderá dizer tudo o que lhe apeteça e da forma que lhe mais lhe pareça conveniente mas há-de sempre padecer de  autoridade moral para impor aos demais que ouçam o que  diz mas não façam o que faz.
É simplesmente impossível que possa haver cumplicidade entre dois sistemas, cujas géneses são diametralmente antagónicas. Nem o azeite  consegue misturar-se com a água (mesmo sem risco de explosão), nem ainda menos  o nitrogénio com o nitrato  de prata - que essa mistura, sim, pode levar tudo pelos ares.
Poderemos ser capazes de perdoar. Mas ser- -nos-á impossível esquecer.  
n M. J. HOMEM DE MELLO
Director Honorário de SP