O poder, o futebol e a moral
As regras do futebol são tão simples que nem sequer precisam de ser explicadas: bastam duas balizas, onze jogadores de cada lado, uma bola, que só deve ser jogada com os pés ou com a cabeça, um árbitro e pouco mais. As regras que regem o futebol são tão complexas, que nem depois de explicadas se entendem: existe uma Liga para os poderosos, uma Federação para as sobras e para a selecção, um Conselho de Arbitragem, umas poucas de sinecuras para sossegar algumas ambições, uns lobbies e… depois, é só deixar as coisas andarem. Sistemas fiscalizadores e independentes? Tretas, que, neste campeonato, é só gente porreiraça! Indústria e... poder! O fenómeno futebol, não sendo recente, adquiriu, no entanto e nos últimos anos, um estatuto que, à falta de legislação apropriada aos novos tempos, lhe permitiu ser, de facto, um “primus inter pares” entre os diversos poderes. Para além de uma florescente indústria, cobiçada pelos mais ricos financeiros do mundo, é também, um poder emergente, capaz de influenciar os diversos faróis institucionais que balizam a nossa vida democrática. De tal modo, que, pelos vistos, a coberto de alguma inércia legal e de um “útil” laxismo interno, foi capaz de gerar, ao longo das últimas gerações, um monstro tentacular, muito difícil de abater. Sejamos claros! O problema já não é de hoje, nem de ontem. É de anteontem! O sistema já foi dominado, até aos anos 60, pelo poder oculto do Sporting, passou para os lados da Luz, com a conivência do poder salazarista, até ao 25 de Abril, e foi tomado de assalto pelo senhor Pinto da Costa, após a Revolução. Um poder tentacular, que se foi ramificando junto dos diversos poderes da República e que assumiu foros de “um Estado dentro do Estado”, nos tempos de correm. Acima da lei, sempre, dentro da lei sempre que possível e contra a lei, se necessário. Absolutamente impune, sempre! Ética e moral... Atingiria foros de escândalo nacional em qualquer país “estável”, se um senhor, indiciado num rol extenso de crimes de corrupção desportiva e não só, manchado de forma indelével, pela suspeita de suporte e controle de uma activa rede de aliciamento de árbitros, fosse publicamente homenageado, num lauto e participado almoço, acontecido em pleno teatro da Assembleia da República, por um conjunto de deputados, e, por isso, representantes do povo, que somos nós todos. E isto, no clímax do caso do Apito Dourado e já na conformidade letal do Apito Final. Como o entender? Forma de coacção? Desprezo pelos Tribunais? Muitas seriam as perguntas, mas nulas foram as respostas. Só em Portugal… Por isso, a pergunta conclusiva? Que valor ainda tem, em Portugal, a ideia de Ética ou de Moral? Porque é que o senhor Vale e Azevedo só entrou em rota de colisão com a Justiça, depois de ter sido derrotado nas eleições para a presidência do SLB? Porque é que a senhora Fátima Felgueiras, o senhor Valentim Loureiro, o senhor Isaltino de Morais e tantos outros, mesmo indiciados em graves casos de corrupção, tanto apostaram na sua reeleição como autarcas? Porque é que o povo, mesmo o sabendo, não se coibiu em os eleger como os seus lídimos representantes, revendo-se, por isso, neles, na sua postura e no seu carácter? Só pode haver uma resposta: os fins justificam os meios. O homem é julgado, não pelo seu carácter, mas pela sua obra! Pouco importa que um império seja criado sobre os escombros do crime, se dele glória houver! A bem da Nação!
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