Democracia em perigo
por MJHM em Setembro 24,2010
Será Portugal um país democraticamente viábel ? Estamos uma vez mais em crise. Num país pobre e pequeno como o nosso, ainda há pouco penosamente saído de mais um largo interregno de autoritarismo, o primeiro - ia escrever o sacrossanto - dever dos políticos deveria ser procurarem, por todos os meios, tornar Portugal democraticamente viável. Pelo exemplo, pela seriedade, pelo trabalho, pelo respeito mútuo, pela defesa intransigente do interesse comum sempre colocado acima das tricas e das ambições pessoais e partidárias. Ninguém ignora - e poucos hão-de discordar - que as experiências democráticas anteriores, designadamente a do final da monarquia e a da I República, naufragaram sobretudo pela instabilidade governativa e pela desordem nos espíritos - mais até do que na rua - que tomou conta a vida pública. As crises que se sucedem com infernal regularidade e os acontecimentos dos últimos tempos são inconciliáveis com a democracia. É inconciliável com a democracia, a agitação social permanente. É inconciliável com a democracia, a instabilidade governativa. É inconciliável com a democracia, a instabilidade institucional. É inconciliável com a democracia, a superpolitização da vida pública, porque o trabalho tem de estar primeiro e a discussão depois. É inconciliável com a democracia, a não subordinação das Forças Armadas ao poder civil. É inconciliável com a democracia, o continuado sacrificio das razões de Estado á mais desenfreada politicagem. É inconciliável com a democracia o poder, cada vez mais tentacular, da burocracia. É inconciliável com a democracia, um endividamente público sem freio nem limites. É inconciliável com a democracia, uma politica de mentira É inconciliável com a democracia, o desrespeito pela vontade popular livremente expressa nas urnas. É inconciliável com a democracia, o triunfo de mediocridade. Ao morrer, tragicamente, naquela tarde cinzenta de Dezembro de 1980, Francisco de Sá Carneiro legou aos portugueses porventura a mais importante das componentes da ??? democrática: a criação de uma maioria política. No bojo dessa maioria, forjara a sua qualidade de Homem de Estado, idolo de uns, temido por outros, respeitado por todos. O seu desaparecimento deixou um vazio insusceptível de ser imediatamente preenchido: os homens de Estado não se revelam nem afirmam num ápice. Nem, infelizmente, quando seriam mais necessários. Despontam quando menos se espera. É certo que os acontecimentos - a premência dos acontecimentos - podem contribuir para a revelação dos estadistas. Napoleão surge por entre os escombros do terror. Churchill afirma-se no meio do “sangue, suor e lágrimas”, em desespero de causa. De Gaulle identifica-se com a França - por parecer que já não havia França. Mas antes que estes e outros gigantes despertassem e iluminassem a época em que viveram - quantos pigmeus, quantos mediocres não os antecederam? “O homem de estado - escreveu Henry Kissinger, a propósito do assassínio de Sadatc - compreendo a essência dos problemas: o político “apanha” somente os sintomas, o homem de Estado localiza a relação dos acontecimentos o político só descortina uma série de factos aparetemente desligados; o homem de estado tem uma visão do futuro, que o capacita a colocar obstáculos na perspectiva o político converte as pedras do caminho em rochedos intransponiveis”. Acrescentaria agora, que o homem de Estado tem a intuição própria do poder ao passo que o político é um mero gestor das circunstâncias. O homem de Estado domina - o político é dominado. O homem de Estado agiganta--se. O político não vence a mediocridade, tendendo sempre a identificar-se com ela. Conforme reconhecia Tallevrand os homens medícrores desempenham o seu papel nos acontecimentos, unicamente porque acontecem estarem neles”. O homem de Estado, se não vence os acontecimentos, procura conduzi-los e superá-los. É a diferença entre o trigo e o joio entre a cepa e o escarracho Valerá a pena que com perguntava Sousa Tavares, “despontar por aí” “o ditador de esporas e pingalim ou de borla e capelo” a aproveitar-se da inviabilidade democrática patenteada pela própria democracia? Se é verdade que, “com baionetas, pode fazer-se tudo menos deitarmo-nos sobre elas”, não é menos certo que a democracia permite tudo - excepto ultrapassar os limites que conduzem à sua destruição. E, se tal vier a acontecer, não havemos de ser nós, mas os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos, que hão-de pagar a “factura” de nova exigência totalitária.
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