A CABEÇA DE S. JOÃO BATISTA
l Neste último domingo de Janeiro, o Evangelho foi sobre a prisão de João Baptista. Ouvi com a atenção devida e, como já conhecia a história, divaguei sobre ela um pouco mais para além das palavras que o meu caro padre Zé Camões explanava na homília… Pecado que confesso já! É que a vida e a morte de João, o Batista foram tristes… Para além da felicidade de lhe ter cabido baptizar Jesus Cristo nas águas do Jordão, ele proclamava para si próprio o título de “a voz que clama no deserto”, o que era certo uma frustação medonha. Aí, comecei a fazer comparações: também todos nós - ou quase… passamos a vida a clamar num deserto de orelhas de quem contrapõe. Oásis em que não sentimos qualquer apaziguamento no desespero de vários “suadouros” ou água à vista, quanto mais não seja para saciar sede de melhores dias… João foi preso por Herodes, rei da Judeia, maluco com assinatura firmada, ao censurá-lo por certos desmandos familiares que envolviam a cunhada… Passou do deserto para aprisão, que Herodes mais que xanfrado era Rei e não admitia que lhe dissessem o que não lhe interessava ouvir. Ao fim de dois mil anos sobre este episódio, com República a funcionar e tudo, ainda há muito boa gente desta espécie - e não me estou a referir só aos xanfrados. Pois então, João foi preso por ter falado demais em tempos em que a Democracia criada pelos gregos já não era o que tinha sido e se foi meter com Herodes que, além de tudo o mais, tinha mau-feitio. Como um mal nunca vem só, a enteada de Herodes, salomé de seu nome, não tinha feitio melhor, além de que era atiradiça e senhora de um relativismo moral que nem o dos tempos presentes. Cobiçou o prisioneiro, que era comprovadamente santo, e daí lhe ter dado tampas sobre tampas, até que a donzela, em dia de aniversário, pediu de presente a “papai Herodes” a cabeça de João Baptista numa bandeja suponho que de prata, mas é episódio que não interessa nada, face de tão modesto pedido… E assim foi que o Santo perdeu literalmente a cabeça, por a não ter “perdido” a gosto da sua enamorada. Vem esta edificante história de como a insistência pode vencer a resistência, a propósito de quê? Façam vocências a fineza de deduzir… Eu não tenciono oferecer a minha cabeça, nem em bandeja de prata, mas os Herodes e as Salomés dos dias que correm bem podiam aceitar verdades de melhor catadura, e, se possível, não se apaixonarem cegamente por nós… E não é que que ia agora começar a divagar sobre governantes intolerantes e a ASAE, que de tanto nos amarem, nos querem submissos e saudáveis até à morte? A que propósito?!… LUISA MELLO PS: Dos tempos bíblicos até ao presente: acaba de rolar uma cabeça importante no Governo… A Salomé desta história chama-se Povo!.
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