Clube da Venda Nova: Confraria do Botaréu
As Confrarias ou irmandades eram associações religiosas de laicos católicos, frateres ou irmãos, que se organizavam para promover o culto de um santo, homem ou mulher beatificado, levado ao altar. Agora os santos são outros – são o nabo, a fogaça, a broa, o bacalhau, as tripas ou o buxo... não há iguaria que não tenha uma! A Águeda, que já tinha tudo, faltava uma confraria. Tinha irmãos e irmãs, frades e freiras, faltava-lhe o regimento e o traje. “O nome da nossa confraria não podia ser outro que não mítico e até milagreiro Botaréu - anunciou o João Carlos da Vereda - o traje é um gabão de burel preto, com chapéu com duas borlas, igual ao do Cantigueiro, criados pelo costureiro Arsénio Taylor, inspirado em modelos do século passado do espólio do retratófilo Breda”. “Tenho a dizer-vos que preferia para traje a capucha serrana – atalhou o Manuel Farás – mas fui derrotado e também entendo que o gabão não é má escolha, embora já tenha sido usado em grupos justiceiros, como o Cacetorum de Aguada e em atos furtivos praticados à noite...”. “E o escapulário, com as cores de Águeda, alinda-o” – acrescentou a Tunice Neto. O Jorge Gosta, em serviço de reportagem, máquina à tiracolo e bloco de apontamentos na mão, perguntou qual a razão de terem posto o nome genérico de Confraria Eno-gastronómica do Botaréu, se “eno” está conotado com o vinho e o “Botaréu” com a água?! O João Carlos da Vereda respondeu, com ar doutoral: “Não há nada de espúrio ou paradoxal nesta relação. Como sabem, fazem-se milhares de almudes de vinho com água e, diziam já os antigos, que quem beber água do Botaréu, nunca mais sairá desta terra. Ora, nós queremos promover a fixação das populações de todos os quadrantes geográfico-sociais...”. “Por isso – interrompeu o José Resvés – pretendemos vender ou mesmo dar milhares de pipas de água do Botaréu para caves e produtores de vinho... porque quem beber dessa água, mesmo no vinho, não tenho dúvida nenhuma de que também cá fica, nem que seja de longe...”. ”E nós temos cá muitas casas vazias para arrendar e até pode ser que venham investidores chineses e russos”, acrescentou a Paula de Barrô. “Eu não acredito em nada disso e vocês também não deviam acreditar – levantou-se o Carlos Abano Abrantes – querem fazer propaganda à água do Botaréu e eu quero é vender a Serrana. Já vi que me meteram nisto e ainda vou ter prejuízo!”. “Eu também não acredito e o que devemos é divulgar os fusis, os sequilhos, as cavacas da ti Libânia, os pastéis de Águeda da Ermelinda e a carne da carneiro à Lampantana da Glória do Charéu – disse o Queirós do Vale, Filho - e para os preservar, vamos criar um museu, mas temos que lhe renovar o recheio de oito em oito dias, se não estraga-se tudo!”. “Quanto a costumes de Águeda, além de assistir ao sermão do encontro e de ouvir música pimba no S. Sebastião ainda não estão sinalizados... só se for o costume, que dizem que os de Águeda têm, de comer da gaveta!“ concluiu, entre dentes, o Manuel Farás. “Já está nomeada uma comissão para elaboração de um livro de receitas gastronómicas de Águeda, desde a chouriça e rojões serranos até ao carapau frito com feijão frade do Pintaínho, passando pela sandes de dez tostões do Fanfas - anunciou o grão mestre João Carlos da Vereda – já estabelecemos contacto com o escritor Brás dos Kiwis, que vai apresentar a obra em verso. E se ele não tiver fôlego sozinho, para uma obra de tamanha envergadura, já tem a colaboração certa do Poeta Catula...”. “Isso mesmo – concluiu o José Carlos Centago – e como vai ser uma obra de qualidade, a ANATA publica-nos isso de certeza!”.
839 vezes lido
|