Minas das Talhadas: A fúria justiceira
Em 1909, era tempo de regime monárquico. A exploração mineira era autorizada, ou não, directamente pelo governo. As autarquias locais não decidiam sobre estas matérias. Os poderes locais de Águeda, ou de Sever do Vouga, pouco podiam fazer e pouco fizeram, antes e após, das reivindicações dos “Conspiradores” do É PAU! É PEDRA!, convocados pelo “Ti” Manuel Abrantes, para junto da capela de S. Tiago, na Borralha. Os jornais locais, existentes na época, colocaram-se com maior ou menos veemência do lado dos produtores agrícolas, mas sem grande sucesso. Do lado monárquico, conservador e católico, orientado por opções progressistas lideradas por Albano de Melo Ribeiro Pinto, fundador do Jornal Soberania do Povo, e por Manuel Homem de Melo, conde de Águeda, houve a promessa de intervir. Do lado republicano, Manuel Alegre (avô do poeta), Eugénio Ribeiro, fundador do jornal Independência de Águeda, e João Elísio Sucena, deputado da nação, também prometeram agir. O Independência de Águeda, opositor do regime monárquico, aproveitou o momento e as circunstâncias da implantação da República para, no período de 5 de Novembro de 1910 a 28 de Julho de 1915, se referir 28 vezes aos problemas causados pelas minas, 28 vezes. No mesmo período o Soberania do Povo apenas por cinco vezes fez brevíssimas referências à questão das águas do rio, aos problemas agrícolas e ao desaparecimento do peixe. Mais tarde, as atitudes foram mais iguais, nestas matérias. Em 1910, a 5 de Outubro, foi instaurada a República e surgiram grandes expectativas da parte dos lavradores. A 13 de Abril de 1912, o jornal Independência de Águeda noticiava que, por influência de Manuel Alegre (avô), havia sido ordenado à empresa exploradora das minas que evitasse lançar águas inquinadas no Alfusqueiro. Celestino Neto, redactor principal do jornal, escreveu vários artigos em defesa dos agricultores. O deputado João Elísio Sucena, no parlamento, pressionava o governo, agora repúblicano. Entretanto, em Águeda era constituída uma Comissão Técnica para estudar os efeitos das águas das minas nos campos do Águeda. O engenheiro Júlio Pinto da Costa Portela, familiar próximo de Benjamim Camossa, um dos proprietários das minas, que era irmão de Adolfo Portela, nascido em Águeda, era formado em Engenharia Civil de Pontes e Estradas, pela A.P.P., e tem o seu nome na rua da Venda Nova, onde eu vim ao mundo. Esteve oficialmente à frente dos destinos técnicos da mina, de 26 de Maio de 1898 até 20 de Janeiro de 1910, onde produzia relatórios, afirmando que preconizara medidas que protegiam o ambiente, mandando construir tanques de decantação, para evitar as escorrências. Não convenceu os agricultores, pois os problemas continuavam. Sucedeu-lhe o engenheiro Monteiro de Barros, que quase vivia na própria mina. Este engenheiro teve que enfrentar uma cerrada oposição da parte das populações, que o consideravam a parte visível do “mal” que afectava os campos. A sua simples passagem por Águeda motivava a ira e os protestos das populações. As promessas dos dirigentes republicanos locais não se concretizavam, tal e qual como as dos líderes monárquicos, no tempo da monarquia. Todos pressionavam o governo. Mas… o governo era ainda mais fortemente pressionado pelos interesses dos governos estrangeiros e pela necessidade do dinheiro das exportações. Iam prometendo uma coisa e fazendo outra. Confrontados com esta realidade, monárquicos, repúblicanos, proprietários, arrendatários, moleiros, carreiros, comerciantes, pescadores, afinal, o povo – todos unidos por Águeda – resolveram, na noite de 20 para 21 de Maio de 1917, indignados com tantas promessas não cumpridas e tantas dificuldades, incluindo a fome, investir contra umas “barricas de minério” que se encontravam no cais fluvial do rio Águeda prontas para embarcar até Aveiro. Em poucos minutos, as barricas foram estilhaçadas e lançadas ao rio vazias, sucedendo o mesmo a carris de ferro. A 24 de Maio, o povo quis linchar o engenheiro Monteiro Barros. Entretanto, foram tocados os sinos a rebate, e um grande número de pessoas vindas de freguesias vizinhas, acorreu ao largo 5 de Outubro. Mais barricas e carris foram lançados ao rio e, de seguida o povo dirigiu--se para Mourisca do Vouga, onde a empresa possuía um armazém. Ali foram destruídas 20 barricas de minério, que estavam no cais da estação e foi lançado fogo ao armazém. Arderam 1500 barricas de minério e um camião que lá se encontrava. Foi violenta a insurreição popular de Maio de 1917 a favor dos campos de Águeda. Mas… em 1924, a 28 de Julho, aconteceria uma destruição ainda maior, como veremos. n SILVA PINTO
2625 vezes lido
|