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Política: Em 1919, a defesa da República fez-se em Águeda

por Deniz Ramos em Janeiro 26,2012

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Há datas, factos e figuras que se agitam como bandeiras de fervor patriótico a reacender a esperança e a fé, quando tudo em volta, a Pátria, as instituições, parece ruir. Na hagiografia republicana as datas de 31 de Janeiro de 1891 e 5 de Outubro de 1910 foram sempre invocadas e evocadas em tempos de perseguições, mordaças e desatenções colectivas. Em Águeda, a essa hagiografia republicana juntar-se-ia o 27 de Janeiro. E justificadamente.
Em 1920, no primeiro aniversário do Combate das Barreiras, ainda foram de exaltação do regime republicano os festejou comemorativos. Juntaram-se milhares de pessoas em romagem ao local onde o valoroso Capitão Vasques se imolou pela República. Houve discursos, banquete, baile, foguetes e arraial, com a participação da Banda da Guarda Nacional Republicana, que se deslocou propositadamente de Lisboa. Enquanto Independência de Águeda enfeitava as suas colunas com textos a glorificar a efeméride, na monárquica Soberania do Povo reprovava-se a ênfase comemorativa: “Nesta hora de desgraça do país, em que nos abeiramos da bancarrota, não manifestações de júbilo mas actos de concórdia que conduzam à trégua reclamada por todos os bons portugueses”. E nesse primeiro aniversário, em resposta, os monárquicos mandaram rezar uma missa solene, a sufragar os mortos em combate, o republicano Capitão Vasques e o alferes Artur Francisco da Silva, das forças de Paiva Couceiro.
Com a fragilização da I República (entre 1910 e 1926 sucederam-se 48 ministérios), o golpe de 28 de Maio de 1926 trouxe com ele a ditadura militar de Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa e Óscar Carmona a abrir o caminho para o Estado Novo de Salazar. Voz de Agueda, fundada em 1922, pelo velho democrático João Elísio Sucena, passará com a Independência de Eugénio Ribeiro a agitar as bandeiras--símbolo do republicanismo, o 31 de Janeiro, o 5 de Outubro e, naturalmente, o 27 de Janeiro. Embora, como sempre, de exaltação republicana, a evocação do Combate das Barreiras, em plena Ditadura Militar será aproveitado para manter aceso o ideal republicano ameaçado nas tibiezas ideológicas dos militares do 28 de Maio.

As comemorações em 1927

Nesse transe difícil, a preparar as comemorações e a apelar à participação dos correligionários, escrevia-se em Voz de Águeda a 22 de Janeiro de 1927: “Republicanos! Recordemos uma data gloriosa e consoladora para a nossa alma de democratas e patriotas. Que o nosso espírito, conturbado por tantos agravos e incertezas, vá buscar no exemplo daqueles que há oito anos souberam bater-se com valentia pelo regime, o conforto para as nossas dores e sacrifícios e o incentivo pura mais esforçados combates em prol dos sãos princípios da Democracia. Viva a Republica!”. E a 5 de Fevereiro, após a manifestação, que se revestiu de grande fervor republicano e que arrastou milhares de pessoas, filarmónicas e festejos populares, Voz de Águeda voltava à exaltação: “Cônscio dos seus deveres e das suas responsabilidades, o partido republicano realizou uma manifestação cheia de compostura e de nobre idealismo, mostrando mais uma vez a sua força, o seu presto neste concelho. (...) Talvez já quebradas as espadas do 31 de Janeiro de 1891 e enferrujadas, porventura, as metralhadoras de há oito anos, em Monsanto e em Águeda, não lograram abafar os ideais defendidos somente por peitos descobertos, de carne e osso, nem por isso a tarefa está concluída”.
Obviamente, congraçada com a situação decorrente do 28 de Maio, como já o fora com o sidonismo, em Soberania do Povo não se comungou desse fervor patriótico e, em editorial, menorizou-se a iniciativa dos republicanos locais: “Aqui, em Agueda, republicanos de várias cores, a pretexto de comemorarem a data em que, ao cimo da vila, se deu, há oito anos, um encontro sangrento entre as tropas da Junta Governativa do Porto e as tropas fiéis ao governo de Lisboa, organizaram uma manifestação de filarmónicas, morteiros, vivóno, cornes e bebes, cuja intenção essencialmente agressiva contra o governo da Ditadura Militar a ninguém passou despercebida”.

O 27 de Janeiro hoje

Hoje, como nos anos mais recentes, ao evocar-se o 27 de Janeiro, na memória que continuamos a preservar já não nos movem os mesmos motivos que levaram os democratas a fazê-lo naqueles transes difíceis de asfixia das liberdades republicanas.
Hoje, na visitação aos lugares onde as forças republicanas contribuíram para  decepar  as  veleidades restauracionistas de Paiva Couceiro, o propósito é, mais uma vez, relembrar aos mais desatentos que o recontro de Agueda não pode merecer apenas uma simples nota de rodapé em historiador apressado ou a omissão de muitos outros.
Muito já se disse em colóquios e actos comemorativos e também muito se escreveu, e repetidamente, neste jornal sobre a sublevação monárquica e o Combate das Barreiras. Até porque o espaço a mais não nos permite, limitar-nos-emos a um breve apontamento, a propósito do contributo dado em Agueda para a contenção das forças monárquicas, impedidas, assim, de se juntar aos revoltosos do sul. No pós-presidendalismo sidonista, a defesa da República começou em Águeda, ali ao cimo, nas Barreiras, a 27 de Janeiro de 1919.
Em Alagoa pode não ter tido lugar um confronto de grande envergadura militar, mas que foi decisivo para a posterior resposta republicana, disso não restam dúvidas. A partir de 27 de Janeiro, Couceiro viu-se forçado a alterar, por completo, a sua estratégia: à progressão do Porto ao Vouga, até vitoriosa, sucedeu a retirada, e de forma desordenada, para os seus redutos a norte, de onde acabaria por ser definitivamente desalojado.

Couceiro na Traulitânia

Atentemos, então, em curta síntese, ao calendário das movimentações de Paiva Couceiro no curso da Traulitânia.
Enquanto em Versalhes se iniciava a Conferência de Paz, após o termo da I Grande Guerra, no dia seguinte, a 19 de Janeiro de 1919, Paiva Couceiro proclamou a Monarquia no Porto e passou a presidir a uma Junta Governativa do Reino. Em Lisboa, o governo republicano rapidamente submeteu os monárquicos em Monsanto, a 24 desse mês. Entretanto, Paiva Couceiro chegou mesmo a ocupar grande parte do litoral centro e a hastear, aí, a bandeira azul e branca.
Rememoremos.
A coluna monárquica, que partira do Porto a 22 de Janeiro e se compunha de forças de Cavalaria, de uma bateria de Artilharia, de uma companhia da Guarda Real e um grupo do Regimento de Infantaria 6, ocupou Ovar em 23 de Janeiro e Estarreja a 24, seguindo-se-lhe Albergaria-a-Nova. Em progressão para sul do Vouga, a coluna de Couceiro apenas foi sustida à entrada de Agueda. Desbaratados a 27 de Janeiro, nas Barreiras, os monárquicos iniciaram a debandada. Terão recolhido a Estarreja que de 24 de Janeiro a 11 de Fevereiro funcionou como centro regional de operações em resultado, decerto, das boas ligações ferroviárias de que aí dispunha (1).   
Entretanto, a campanha do Vouga, prosseguia, com avanços e recuos, com Aveiro a manter-se leal à República.
Após o recontro de Agueda, as forças republicanas, reforçadas com mais efectivos, passaram para a margem direita do Vouga, retomaram Albergaria e Angeja e, sob um intenso temporal que assolou a região, reocuparam Salreu a 10 e, ao amanhecer de 11 de Fevereiro,  entraram em Estarreja. A 12 de Fevereiro, foram recuperadas Ovar e Oliveira de Azeméis e, a 13, a República voltou a ser restaurada no Porto. Como se pode concluir, o revés de Paiva Couceiro em Agueda foi determinante para o curso das operações.

A contra-informação em Por Estarreja

Estarreja foi o principal reduto couceirista na logística das suas incursões até ao Vouga. A bandeira azul e branca da Monarquia do Norte foi hasteada em 24 de Janeiro na praça principal da vila e aí chegaram a estar aquartelados cerca de dois mil homens. Subordinada ao comandante militar, major Guedes Vaz, a ordem administrativa foi assegurada por uma Comissão Municipal constituída por realistas locais e pelo administrador do concelho, o capitão da Guarda Real Artur Martins Dionísio.
Assistiu-se, entretanto, ao êxodo de grande parte da população nas zonas controladas por couceiro e com a imprensa local silenciada ou fortemente censurada circulou uma publicação de duas páginas, bi-semanal, Por Estarreja, que tinha o beneplácito dos ocupantes. Obviamente, destinava-se a acções de contra-informação para moralizar a tropa, escamoteando a desastrosa situação no terreno.
Ainda na sua edição de 9 de Fevereiro, a quarta, ou seja, já depois da derrota em Agueda e com as forças republicanas próximas - caíra já Albergaria-a-Nova e as vizinhas Fermelã e Canelas e com Salreu a ser flagelada pela artilharia - a folha exaltava, euforicamente, os êxitos monárquicos: “Soldados! Está próxima a vitória. Não percais ânimo, nem deixeis de combater pela melhor causa, a única que poderá salvar a Pátria do caos em que a demagogia a atirou. Todas as posições estão a nosso favor e se o norte está tranquilo e sossegado, o sul não demorará de estar também, porque as nossas forças se saberão impor, para que em breves dias a nossa vitória seja um facto e a restauração segura e pacífica em todo o país. Ânimo, coragem e boa vontade para servir a causa santa, a causa que porá fora do alcance do estrangeiro o nosso lar, a nossa aldeia, os nossos haveres!”

Visita de Couceiro às tropas

Nesse domingo, em demonstração de normalidade, dirigida, em particular, à população civil, teve lugar uma missa campal na praça. Antes, no dia 6, Paiva Couceiro fizera uma ultima visita às tropas aquarteladas em Estarreja (2).
De acordo com Por Estarreja, o caudilho monárquico permaneceu na vila algumas horas e “depois de fazer um esplêndido discurso, apresentando as boas condições em que se encontra a causa há tanto por si iniciada, retirou no seu esplêndido automóvel, acompanhado do alferes seu ajudante. Tanto à chegada, como à partida, foi S. Exª. delirantemente ovacionado pela grande massa de povo que a essa hora se encontrava na praça e pelas tropas que ali estacionavam em grande número”.
A edição de Por Estarreja, anunciada para a quinta-feira seguinte, dia 13, já não foi vendida a 40 réis o número avulso. A 11 de Fevereiro, a bandeira da República voltaria a tremular na praça de Estarreja (3).
O insucesso da aventura restauracionisni de Paiva Couceiro começara às portas de Agueda, a 27 de Janeiro de 1919. E isso que hoje queremos lembrar, por ocasião de mais uma romagem aos lugares santos de Alagoa.

1 Marco Pereira, “ Monarquia do Norte (ou Traulitâilia). Ocupação monárquica de Estarreja (24.1.1919-11.2.1919), em Terras de Anuã, nº. 2, Ano 2, 2008.
2 Marco Pereira, op. cit., refere outras, a 27, 29 e 30 de Janeiro, esta a Avanca, mas não data a de 6 de Fevereiro.
3 Condensação de um trabalho nosso, A Monarquia do Norte em Estarreja, introdução a um estudo posterior, lido numa reunião do Rotary Clube de Estarreja, em 29 de Abril de 1991.

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