Aquilo não é uma pomba, parece é uma águia!
No sábado anterior à Festa das Almas da Areosa é construído um conjunto imaginativo de varas entrelaçadas de espirais e arabescos, cobertos de buxo, alecrim, folhas verdes e flores de cores várias a que se chama arco, que é renovado e fica a atestar a criatividade dos responsáveis pela sua concepção. O arco é erguido em cerimonial antigo, segundo as usanças, em frente à porta da capela setecentista. “Este ano, fica bem a encimar o arco um arranjo floral com a figura da uma pomba, que é o símbolo da ordem e da paz”, disse o António Maria Canário, com ar doutoral. O arco foi erguido com solenidade, ao som da música infernal e harmoniosa dos gaiteiros e, no final, foi apreciado pelos olhares deleitados de todos os que ali estavam que lhe tributaram prolongada salva de palmas. A certo momento, depois de mirar e remirar, o Juiz da Festa, Jorge Heitocar, observou: “Aquilo não é uma pomba, pelas garras, pela envergadura e pelo bico, parece uma águia!”. “O homem é benfiquista e abusou”, disse o Joaquim das Baterias. "Se ainda lá pusesse um galo, que é o símbolo das Almas...”, “Ou um leitão…"- acrescentou o Henrique Segurador. “Ou uma vaca, que tem tradições aqui na festa, em promessas, rezas e voltas à capela”, observou o Hernâni dos Calhambeques. “Uma vaca não podia ser, ocupava o arco todo e não há flores que dêem para fazer as tetas! Cortem as garras à águia que ela fica logo parecida com uma pomba!”, sentenciou o Juiz Será Fim. Calaram-se por instantes até que, a certo momento, o Lucifer Martins, com ar solene, aventou: “Só há uma maneira de resolver isto, no lugar onde está a águia pendura-se uma gaiola com uma pomba”. O António Maria Canário ouviu aquilo, encolheu os ombros e concluiu: “Pode ser a solução, mas é mais um encargo para a juíza, que tem que lhe dar de comer!”. No domingo, a procissão saiu esplendorosa. A abrir, seis cavaleiros aperaltados em cavalos fogosos e a estrumar o junco. Depois, crianças vestidas de anjinho e escuteiros vestidos de criança, pendões, bandeiras e o pálio levado por confreiras e confrades, figuras públicas e privadas, bandas, foguetório, etc. Os confrades, embrulhados em gabões, seguiam em passo cadenciado, marchando em alas, espelhando o sorriso da ufania, passando entre a multidão de pessoas que se acotovelavam nos passeios. O Júlio Carapuço ia a amaciar o escapulário e o dr. Joaquim Almada a desfiar piedosamente as contas do terço. Junto ao passeio, o João Carlos da Vereda, a Tunice Neto e o Manuel Farás, membros da nova Confraria Sabores do Botaréu, apreciavam, o comportamento dos confrades das Almas da Areosa. “Estejam atentos ao que fazem os nossos padrinhos, os confrades das Almas da Areosa – disse o João Carlos da Vereda – depois temos que fazer igual na Procissão dos Passos”.
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