Clube da Venda Nova: Podem ter opinião, mas guardem-na!
Jantar de conciliação de alinhados e desalinhados do partido laranja do concelho de Águeda. Os aparatchicks entraram naquele espaço arejado, levando à frente a presidente, Paula de Barrô, embrulhada num casaco branco de astrakan, fechado com alamares dourados. À sua espera tinha todos os autarcas eleitos para as freguesias por aquele grémio, que a saudaram com uma salva de palmas, em surdina, e que estavam acomodados em mesas paralelas que entroncavam numa outra sobranceira, a mesa dos notáveis. Comeram vagarosamente um arroz malandro de pato mudo e uma sobremesa de pudim de laranja de umbigo. Antes do café e dos digestivos, a presidente pediu silêncio batendo numa garrafa com a colher da sobremesa e disse, de cenho carregado: «Companheiros, depois de reunir os meus pares posso concluir que devo estar indignada com o comportamento intolerável de alguns dos autarcas que foram eleitos usando a nossa bandeira». «É verdade – continuou o Alberto Marquês, que estava ao lado e torcia nervosamente os dedos – não se admite que dentro de um grupo que queremos coeso e actuante, haja dissensões, verdadeiros actos de felonia e de insurreição, que nos tiram a força e a união..». «Se me dão licença – interrompeu o Heitor Carapuço – nós não podemos ter opinião? Temos que seguir cegamente os vossos ditâmes?». «Podem ter opinião, mas guardem-na e não têm que seguir cegamente, por que se quiserem nós explicamos», respondeu o Paulo Roçada da Mata com tanto vigor, que até agitava a maçã de Adão. «Foi ultrajante o que se passou com a Nair do Barrete, quando da eleição para presidente da Assembleia do Clube, porque uns desalinhados, indisciplinados, desertores e desleais não votaram nela e entregaram esse prestigiante cargo ao Celestino de Almada, de um partido rival, o único que connosco pode almejar o poder», observou a presidente, com acrimónia. «Eu acho que alguns fizeram isso, por ele ter uma voz potente que chega ao fundo do salão nobre – justificou o Carlos Aberto de Valongo – e isso foi para acautelar alguma avaria da aparelhagem sonora». O Vasco de Belazaima que estava há algum tempo pensativo e absorto levantou-se e disse com convicção: «Eu não admito mordaças nem regras redutoras e que me chamem indisciplinado e muito menos desalinhado ou desleal. Pensarei sempre por mim e votarei como penso». «Isso não está certo – retrucou a Paula de Barrô, vigorosamente – se usou o nosso nome, a nossa fama e a nossa insígnia para alcançar do poder, tem que obedecer sem rebuço e sem contestação às instruções emanadas da hierarquia. Se assim não acontecer sofrerão as consequências e uma punição exemplar!». «Isso é estalinismo...». «Não é porque não matamos ninguém! Mas serão excomungados, retiramos-lhes a confiança política», disse o Paulo Roçado da Mata, acrescentando: «Depois quero ver como é que se arranjam! Não podem usar crachá, nem insígnia, nem bandeira e nem dizer no café que são do partido!». * ** * O membro activo da Comissão Fabriqueira de Barrô, Wilson do Padre, apesar do seu espírito místico e tolerante, praguejava no Café Central mostrando um papel: «Isto aqui é uma factura da água, vejam lá quanto custou encher a pia batismal, que leva para aí uns cinco litros e o hissope, que nem meio litro leva... O que pagamos de água dava para encher a piscina municipal!». «Ó homem, toda a gente se queixa - observou o Virgílio de Barrô - só me admira é que mandem uma conta dessas à Igreja! Temos que avisar o padre para gastar menos água benta!».
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