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Clube da Venda Nova: Dedilhava com unhas postiças uma viola só com cinco cordas porque lhe faltava o ré

por Redacção Soberania em Fevereiro 02,2011

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Foi inaugurado o novo edifício da Marques de Castilho. Mais espaço vivo, onde convivem o saber e a recusa de aprender e a alegria e o sacrifício de ensinar. Jovens alacres com bandeirinhas amarelas e verdes, fome e esperança, dispunham-se em duas filas paralelas à espera que chegasse algum notável de Lisboa, para passar pelo meio e ser vangloriado.
Chegou um automóvel preto, enorme e reluzente e dele saiu um cavalheiro apolíneo, bem trajado e empertigado, que foi cumprimentado pelo director, pelo comandante das forças em parada, capitão da GNR e pelo clero, representado pelo padre Camões, pelo edil máximo, Gil Pedalais, e pelo Seara Alheia da Junta, que envergava umas calças de ganga, botas Doc Martens, camisa de riscado e gravata Luis des Mailles e um casaco Arsénio Tayllor.
O ministro fez um discurso político empolado mas tedioso, como sempre e concluiu:
«Como vêem, não é necessário irem para a rua protestar, nós fazemos as obras...».
«Mas o senhor é ministro das polícias – interrompeu o Seara Alheia – o que é que tem a ver com a educação?»
«A minha vinda tem um sentido pedagógico – respondeu o ministro, com convicção – é que dizem que há para aí muita indisciplina e quando olham para mim, vêem o saber e a força... ou vai a bem, ou vai a mal!».
«Então foi por isso que à Festa do Leitão mandaram a Secretária de Estado da Educação! – comentou O Gil Pedalais – já vi que era para nos ensinar a comer e ter boas maneiras à mesa».
*** * ***
Rebenta a bernarda por todo o lado. É no Egito, onde não querem o Moubarack, na Tunísia onde não querem o Ben Ali e aqui não querem a ministra da Educação nem outros, porque o ensino está mal e também o resto. Como em Águeda não há ensino particular, não se vêem protestos com crianças de camisolas brancas nem professores e pais a passear urnas pelas ruas. Mas há outras razões ponderosas e graves para erguer a voz.
«Vou lá para cima ter com os outros», disse o Joaquim da Trigal a subir a rua, afogueado de entusiasmo.
«Que outros?», perguntou o Estimado dos Papéis, estendendo do pescoço para fora da porta, com curiosidade. «Estão todos lá em cima à porta da ADRA (Águas de Aveiro) que devia chamar-se LADRA pelos preços que impõem».
«Eu também tenho uma boa razão para ir consigo - retrucou o Estimado – vendo livros e papéis e registo o totoloto e recebi uma conta como se tivesse uma lavagem de automóveis, são uns ladrões!».
«E a minha? - respigou o Acácio Queirós do Vale - só gasto água para ensaboar a cara dos clientes e as caras até nem são muito grandes e mandaram-me uma conta de água que dava parar regar o Jardim do Conde!».
«Então a sua conta não é muito grande, que o jardim é pequeno – respondeu o Joaquim da Trigal, que continuou com raiva – já paguei mais mil litros do que o que gastei e ainda tenho as facturas de Dezembro e de Janeiro para pagar! Mas eles têm que me vir cá pôr a água, nem que seja num auto-tanque dos bombeiros!».
Subiram todos e juntaram-se à multidão ululante de gente indignada, que se aglomerava à porta da ADRA com as facturas na mão.
Para dar força ao movimento, o Fernando Balantaines dedilhava com unhas postiças uma viola só com cinco cordas porque lhe faltava o ré a acompanhar o Alcindo Tenor que, indignado, cantava esta balada triste:
 “A conta que nos mandam/ do contador e das águas/deixam-nos a chorar/tantas são as nossas mágoas/ de nada valem as choradeiras/ temos que fechar as torneiras/ mas mesmo com elas fechadas/ mandam contas por inteiro/não gastamos a água/mas levam-nos o dinheiro”.

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