Portugal e Águeda
Iniciamos agora, em Portugal, aquela que será certamente uma das fases de austeridade mais duras da nossa história moderna. Ao contrário do que alguns falaciosamente insistem em continuar a afirmar, penso que estamos apenas no início dessa caminhada e não perto do fim. As gerações mais novas, como aquela a que pertenço, criadas numa riqueza virtual, terão agora de se adaptar à actual real pobreza, na qual terão de aprender a sobreviver e na qual lhes será pedido que criem as gerações futuras. O aumento de impostos exigido resultará numa diminuição do consumo e do investimento, que inevitavelmente conduzirá à recessão e a mais desemprego. A subida dos impostos fará também com que a fuga ao fisco se torne novamente apetitosa e que o risco volte a parecer aceitável. Fará com que a criminalidade volte a disparar - os nossos instintos mais básicos dizem-nos que é mais fácil roubar do que morrer à fome. Mais criminalidade (seja ela violenta ou económica) significará mais processos e, naturalmente, mais atrasos na justiça. O nosso já moribundo sistema de justiça passará a ser ainda menos célere. Tal como a maioria dos portugueses, não sei se a vinda do FMI será ou não melhor para a generalidade de todos nós. Sei, contudo, que, provavelmente faria com a que a crise, que continua a ser paga pela classe média e média-baixa, fosse paga por todos, algo que não vislumbro que venha a acontecer no actual estado das coisas. Por outro lado, a sua chegada traria a injecção de muitos milhões de euros na economia portuguesa. Enganam-se, contudo, aqueles que ainda continuam a acreditar em “almoços grátis”. Essas injecções de dinheiro, que podem parecer apetitosas traduzir-se-ão em pesados encargos paras as gerações futuras, cujo futuro já se vislumbra demasiado negro. A vinda do FMI significaria não só que, uma vez mais a classe política não tinha sido suficientemente capaz mas também que o eleitorado não tem sido suficientemente inteligente para se sobrepor às mentiras que por cá fazem ganhar eleições. Por Águeda, continua-se a gastar milhões de euros (sim, milhões!) em obras que não terão qualquer retorno económico ou social. Brinca-se às ciclopistas, aos açudes, aos centros de artes e às TV’s e Internet’s municipais, de uma forma que faz pensar que a crise é apenas no país do lado e que não temos nada a ver com isso. É hora de dizermos basta. Penso que já ninguém duvida que é impossível continuar a alimentar tanta incompetência e regalia. É hora de cada português assumir a responsabilidade que lhe é conferida no direito ao voto. Portugal pode ter muitos problemas de corrupção mas os senhores e as senhoras que se sentam em S. Bento foram eleitos com votos dos portugueses, em eleições, livres, democráticas e transparentes. É tempo de exigirmos responsabilidade a quem confiamos o nosso voto. Doutra forma, a liberdade de escolha de que dispomos pouco ou nada nos ajudará. Com tudo isto, interrogo-me: como estaremos nós daqui a um ano?!
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