25 Anos, Cidade
Passou um quarto de século desde que Águeda foi premiada com o estatuto “CIDADE”. Em alturas destas, há muito quem orne a aniversariante com o véu diáfano da bajulice. Porém, nós, repudiando tal atitude, que às vezes atinge o execrável, em jeito de balanço sucinto e renunciando à fantasia do fato festeiro, passamos em revista, segundo a nossa perspectiva, a cidade que fizemos nestes trinta e tal anos de democracia, sabendo, no entanto, que a nossa opinião terá a discordância, não só dos castelãos ciosos da defesa das muralhas, mas também dos sem ambição e visão vesga, dos apaixonados, sempre incapazes de ver a fealdade de quem amam. Acreditamos que esta visão não colha a simpatia de “gregos nem troianos” já que, eventualmente, remexe nas consciências dos que tiveram a nobre missão de governar a comunidade durante trinta anos, fazendo-o com muita incipiencia, e ainda porque esta análise, não deixará de afrontar os interesses que se instalaram após o 25 de Abril, por benefício da boleia da “partidarite cega”, que levou ao poder não os mais competentes, como seria desejável, mas os mais subservientes à cor. Agora que o tempo urge e a vida se encurta, sentimos ainda mais a saudade da “Águeda-a-Linda” cantada pelos poetas dos nossos avós. Linda como já foi, antes dos mamarrachos da esquina do Almeida, das ruínas da farmácia Vidal, da casa Pimenta, da moradia Carlos Rodrigues, do museu do Engenheiro etc. etc. etc. Não deixamos de Sonhar Águeda como um ícone do século XXI, apesar de se terem perdido as melhores oportunidades e de se ter andado a fazer gestão corrente como o vulgar merceeiro. Sem ambições e limitando as perspectivas, contemplando os pergaminhos do passado, qual “velho do Restelo” com a mão atrás da orelha a perscrutar os astros, mirando por um canudo, sem ver o mundo girar. Estamos conscientes dos incómodos, mas não nos demitiremos de, desapaixonadamente, fazer a leitura às mudanças no Burgo, desde que a revolução dos cravos deu a palavra ao povo. Povo que na sua humildade, às vezes ingenuidade, faz heróis de pés de barro e glorifica as incompetências. Não ignoramos algumas mudanças, mas faltou a Águeda, visão do futuro. Águeda viveu à sombra de uma indústria que foi próspera e fez Águeda grande, mas que aos poucos ia ficando moribunda sem que os autarcas dessem por isso. Faltavam condições de base com infra-estruturas adequadas ao tempo e ao rumo da história, mas os poderes instalados, a quem competia, responderam com a indiferença ou soluções avulsas, característica de quem não vê ou não tem horizontes. E assim, assistiram, mas sem dar por isso, à asfixia de uns e à deslocação de outros para os Concelhos vizinhos. Águeda teve o prémio de quem adormece à sombra dos louros. O mais provável é, as folhas secaram, e acordar ao sol! Durante trinta anos, salvo raras excepções, não soubemos aproveitar os milhões da Europa para fazer o mais importante: A mudança das mentalidades! Vivemos um tempo amorfo sem planos arrojados nem critérios rigorosos, sem força nem ambição de conservar Águeda na linha da frente, vivendo envoltos e absortos com politiquices caseiras. Não fosse a galhardia que a indústria teima em conservar para não enrolar a bandeira, e estaríamos na mediania de qualquer vilória portuguesa! Conquistámos o estatuto ”Cidade” que de pouco mais serviu que à alteração heráldica na nossa bandeira. Não basta ser, tem que parecer, e Águeda não parece porque não tem a mentalidade de “Cidade”. Nós, por cá, raramente enxergamos além da soleira e passamos o tempo defendendo interesses mesquinhos, tropeçando aqui e ali, espectando os vizinhos que de olho vivo, correm, saltam a pés juntos, fazem o pino, mas levaram a “Carta a Garcia”. Enquanto nós estáticos ficamos a “ver passar a procissão”, perdendo as oportunidades! Resta-nos a esperança dos novos projectos que, sem serem megalómanos, vão emprestar um ar de Cidade. As novas ZI são importantes mais-valias para a recuperação do estatuto de Concelho industrializado, mas devia ser condição sine qua non, a certificação ambiental para todas as empresas que lá se instalarem. Seria um bom sinal da autarquia à sensibilização para o ambiente. Mas a melhor aposta é nas escolas e suas competências porque é aí que está a chave para a mudança das mentalidades que levem os futuros investidores aguedenses a fazê-lo na ciência das tecnologias, na valorização social e no capital humano, em detrimento do exibicionismo bacoco e da fanfarronice estúpida do novo-riquismo, sentimento efémero que não dá felicidade a ninguém e característico dos “egocêntricos”. Águeda já foi grande e perdeu... Ganhou a mediocridade! Esperamos que o novo quadro de projectos possa restituir-nos a esperança de Águeda ocupar o lugar que já teve e nos possamos orgulhar de ser Cidade, mas cidade arejada. Antes, porém, arejem-se as mentalidades porque, a par da incompetência, são as birras e caturrices de uns, os erros administrativos e controvérsias judiciais de outros, a causa de vermos, paredes-meias com a elegância de alguns espaços, umas quantas casas esventradas e em ruínas. É com postais destes que ficamos com esta ideia: Cidade nova, que não deixou, ainda, de ser velha! n A. A. Silva - 2010-08-11
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