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E agora, Águeda?

por Paulo Matos (dr.) em Novembro 25,2009

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Águeda está à espera de um tempo novo na política, que de políticos novos, no rescaldo das últimas refregas eleitorais, não se vislumbram grandes novidades.
O PS ganhou as autárquicas com o mérito da obra programada e o demérito de uma oposição sem chama e socalco, mas com o lastro inegável de obra feita, embora projectada num tempo outro, de fundos comunitários exíguos e exigências administrativas mínimas, a fazer lembrar a diferença com que se geriam as mercearias de bairro, antes do advento das grandes superfícies.
É a evolução normal dos tempos !
Não é justo, no entanto que se passe uma indelicada tábua rasa sobre o papel que dezenas de autarcas, ao longo de 29 anos, desempenharam no desenho das linhas do desenvolvimento do concelho de Águeda.
E isso por mais práticas desajustadas e desnecessárias que tenham existido, o que também não se pode negar. De resto, ensina-nos a vida que só nelas incorre quem produz algo !
Não se afigura justo apoucar a obra feita, como se de milagre se tratasse, olvidando o trabalho de tanta gente com fibra comunitária, e espírito de serviço, entre muitos que lideraram o governo local, como Valdemar Alves, Deniz Padeiro, Castro Azevedo e José Júlio Ribeiro, que cito por último, em homenagem e reconhecimento a um grande senhor de Águeda que nunca se afirmou pela etiqueta do “cheque” ou o “estatuto do património” ou da “conta bancária”, mas pela delicadeza do trato, pela verdade da obra concreta e pelo desígnio humanista de um homem puro e sincero que, no recato dos salões dos homens livres, referia sempre com sentimento e alma: “Dar-me-ei a Águeda mais do que a mim mesmo e tudo farei para ligar o litoral ribeirinho ao interior serraneio desta Águeda-a-Linda!”.
Quem ligou a cidade à serra pelo acesso à IP5 (hoje A25)? Quem construiu a variante à EN1, a ligação do troço de ligação a Perrães? Quem criou os alicerces dessa mui nobre instituição estratégica para o desenvolvimento económico que é a ESTGA? Quem construiu centros de saúde e postos médicos? Quem dignificou sedes de Junta de Freguesia e escolas como a C+S de Valongo? Quem deu à cidade o estatuto, com infraestruturas de desporto e cultura, como as piscinas e o estádio municipal, o arrelvamento sintético de campos de futebol onde militam milhares de crianças por esse concelho fora? Quem projectou e remodelou o Hospital, enquanto Hospital Distrital, hoje em risco de perder tal estatuto, ante promessas vãs - muito recentes, algumas, da construção de um novo equipamento de saúde, por parte de quem, noutro tempo, nunca assumiu a clarividência de perceber que, em economia de escala, tal desiderato seria inviável nas condições que o país atravessa desde 1995, quando começou a divergir com a Europa? Quem havia projectado um Tribunal novo, quando hoje se assiste ao remendo remodelativo de um espaço de justiça, que nem conservatórias de registo alberga, com um Juízo de Execução do Baixo Vouga que agoniza com milhares de processos em andamento lento, uma magistrada a tempo parcial e meia dúzia de funcionários dedicados mas exaustos? Quem havia projectado a Biblioteca Municipal e o Fórum da Juventude? Quem deu alma ao Largo 1º. de Maio, antes da queda do muro, agora que de Berlim se fala, quando o rio ainda espera uma prometida perestroika de um açude há muito anunciado?
Enfim, teremos tempo para falar destes alicerces e de outros que a memória dos bem intencionados não branqueará.
Podemos e devemos desejar uma mudança de paradigma na gestão local, acompanhado de resto a sociedade da informação desde a tão falada Estratégia de Lisboa do último dos primeiros ministros dialogantes, mas mais inoperantes que Portugal teve.
Mas o que não parece sério é seguir-se esse vício da maledicência militante que tudo põe em causa, ofendendo gente digna que marcou a sua posição na história de Águeda.
Caberá antes perguntar: E agora Águeda ?
Agora que a memória colectiva dos povos e dos seus governantes anda arredia de critérios éticos, deve esperar-se mais e mais para todos, sem escamotear a história e branqueá-la por precipitados entusiasmos de conjuntura, por parte de quem, aliás respeitável e
professoralmente, se permite colocar em
causa todo um acervo autárquico, convocado pelo arrebite de uma pena mais entusiasmada com a nova geração no poder - a quem a história recente atribuiu o ónus da prova.
É verdade que Águeda precisa de mudar de paradigma de desenvolvimento e, é verdade que os eleitores, percebendo tal desiderato, conferiram segundo mandato a uma nova geração de políticos locais, de quem esperam o salto em frente, construído sobre as sapatas de um passado, quantas vezes conturbado mas nem por isso imaginário ou irrelevante.
Há obra concreta no terreno que tem de ser continuada e gerida, com novas práticas e novos protagonistas, quer ao nível de quem  gere o poder, quer ao nível de quem planifica. E ao nível da organização dos partidos que o almejam.  
Da comunicação social social, toda ela respeitável e essencial, resta a competição a que se assiste pela sobrevivência de quem melhor conseguir fazer jornalismo sem mácula de serventias de interesses instalados, económicos e políticos.
Vamos acompanhar o desafio e assistir ao desenlace com a serenidade dos justos, que não dos justiceiros.
Estaremos bem intencionadamente atentos e vigilantes, sem a tentação da revanche hoje tão em voga por parte de governantes que esquecem a separação dos poderes e se arrogam o pensamento único.
Por mim, agradeço à Soberania do Povo a honra de me ter voltado a chamar ao combate para a opinião livre e descomprometida, num jornal de que nunca deixei de ser colaborador fiel, apesar do defeso a que me remeti enquanto exerci  função política que exigia recato opinativo e postura independente.
Voltarei com a regularidade que o tempo da canseira profissional e pessoal me permitir, agora que regressei ao meu estatuto de membro da Assembleia Municipal de Águeda, a cuja Mesa tive a honra e o privilégio de presidir no mandato pretérito.
n Paulo Matos
Membro da Assembleia Municipal de Águeda

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