O tabaco nem sempre mata mas amolenta...
Calhou-me a mim, no Natal, ir até Lisboa para junto do meu marido e restante família. Para o não obrigar a vir-me buscar de carro, meti-me no Alfa em Aveiro e aportei a Santa Apolónia sã e salva mas com uma "pedrada” de todo o tamanho… Perdão?… Suponho que pedrada seja o termo certo: atordoamente, boca seca, mal estar difuso, pernas fracas - coisa que se prolongou por todo o dia seguinte. Comida estragada? Para mim, pior: tabaco! Como?!… Foi assim, eu conto: entrada em Aveiro calhou-me em sorte lugar junto a um passageiro que dormia desabaladamente de cabeça encostada ao vidro da janela. Nem a tosse funda que "expelia" da caverna do peito parecia incomodar-lhe a soneca. Menos mau, pensei, quando acabada de sentar imediatamente me veio ao nariz uma lufada muito pouca fresca de fedor a tabaco. Caso o senhor tivesse acordado, saudando delicadamente uma boa tarde, era eu incapaz de corresponder ao cumprimento por falta de ar. Comecei a realizar que o caminho era pelo menos de duas horas e que o aroma seria companhia dedicada e fiel… Não era aroma de um simples cigarro, devia estar entranhado há meses (anos?!…), sei lá se desde a primeira “prevaricação” daquele senhor ainda na escola primária. Com o andar dos tempos, nos cabelos revoltos e no bigode marialva. A chegada do revisor não o acordou. Teve de o sacudir com com pancadinhas no ombro. Meio atordoado começou a tirar de quantos bolsos tinha “baforadas” de objectos que não eram o bilhete. Por essa altura já o funcionário me tinha lançado olhares significativos de piedade. Ajudou mas pouco… O bilhete do meu parceiro de lugar apareceu por último, anunciado também com o seu toquezinho aromático e aquele, finalmente desperto, perguntou delicadamente se o meu destino era Lisboa. “Sim, Santa Apolónia”, e deu-me uma onda de optimismo que a resposta fosse Coimbra B, paragem a seguir. Qual!” Também vou para Lisboa, mas para a gare do Oriente. Quer a senhora ter a amabilidade de me acordar aí, para o caso de tornar a adormecer?!” (Coimbra nem sequer estava à vista, Lisboa era o fim da linha!) Prometi, lembrando-me alarmada que os balanços do comboio podiam muito bem empurra-lhe a cabeça do vidro para o meu ombro ali mesmo a jeito. Costumo, durante viagens de comboio ler a “Sábado” de uma ponta à outra e a isso me propuz no meio da adversidade olfactiva… Não consegui. A cabeça fugia-me, o nariz protestava irritadíssimo, a “pedrada” estava como o comboio: em marcha. Será que o tabaco droga? A mim, a instabilidade “deu-me para dois dias! Ainda assim, com a leitura inviável, pude observar o “mundo à volta”. Pedrei ainda mais. Além de da voz de uma criança, lá à frente , a discorrer que nem gente grande sobre a relação falta de banho - mau cheiro (cheiro!…), comecei a reparar que tanto quanto a minha vista alcançava ninguém se entretinha a ler. A carruagem parecia um escritório: de cada mesinha frente ao passageiro “brotavam” portáteis que nem cogumelos. O que se lia era nos ecrãs. Outros, levavam fios enfiados nos ouvidos, olhos fechados, e como único sinal de vida a cabeça abanando de vez enquando. Nada disto incomodava, é verdade. Estava a verificar com os meus próprios olhos o “Admirável Mundo Novo” obra produzida por Aldoux Huxley no século passado e que nem assim previu tanta novidade… Não fora a vózinha da criança e a carruagem mais pareceria um recinto de zombies: comunicação zero. O “quinhão tabágico” que me coube em sorte teve ainda assim a sua vantagem e precisamente na falta de comunicação. Uma conversa com o dorminhoco teria sido bem pior com o que já bastava! Final do episódio: já na gare, atordoada, agoniada, cabeça a fugir, mal retribuido o beijo de boas vindas do meu marido, oiço espavorida: “Não me digas que começaste a fumar!?…”. PS: De humor avinagrado, tempo de sobra, tive ocasião de deitar bastas vezes os olhos para o indicador de velocidade a que seguia o comboio. Tão depressa seguia a 210 à hora como a oitenta e poucos. Talvez com um arranjo nos carris ou coisa equivalente os 210 se mantivessem regulares… Seria obra mais cara que o TGV?
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