A moral, os usos e os costumes
A falibilidade é uma das características mais salientes e menos discutíveis da espécie humana. Foi, aliás, necessário o decurso de mais de um milhar de anos para que a Igreja católica aceitasse, no Concílio de Trento, realizado entre 1545 e 1563, em “resposta” ao caos consequente do despontar do protestantismo, o dogma da infalibilidade pontifícia, desde que o Papa assuma oficialmente a sua qualidade de Vigário de Cristo. E, mesmo assim, a decisão foi reticentemente acolhida, havendo largos sectores, inclusive do catolicismo mais conservador, pouco propensos a aceitar o imperativo dogmático atrás referido. Isto significa pelo menos duas coisas de primacial importância: 1. Que a verdade não factual nem sempre é a mesma para todos; 2. Que muitas vezes aquilo que é aceite e seguido por uns pode ser ignorado ou mesmo repudiado por outros tantos. Daí o conhecido e acatado provérbio “cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”. Por isso mesmo, até o Velho e o Novo Testamentos estão salpicados de contradições: diversíssemos princípios considerados como sagrados ou intocáveis antes da era cristã acabaram por ser esquecidos e alguns até espezinhados após a “oficialização” do cristianismo. Significa isto, conforme ficou referido, que muito do que parece imutável afinal não o é assistindo-se à contínua evolução dos costumes e até mesmo de preceitos considerados imutáveis ao longo de muitos séculos e que acabaram por ser virados dos pés á cabeça deixando alguns rastos de pueril comicidade, quando não de terror. Se tivermos presente a selvajaria que acompanhou a inquisição, as matanças que as Cruzadas e o rosário maldito que constituiu a história das igrejas poderemos avaliar a dimensão dos erros cometidos e as mutações levadas a cabo. As barbaridades foram tantas que obrigaram os sucessores dos principais responsáveis a pedir desculpa urbi e torbe. Pelas atrocidades que permitiram ou até mesmo incitaram a que fossem cometidas. Se se mudam os tempos também se alteram as vontades. No que respeita aos costumes e às regras da Moral que muitos ainda consideram tradicional, as modificações chegam ao limite do impensável. Será que alguém poderia ser capaz de prever que nos primeiros anos do século XXI seria possível oficializarem-se (e logo em Espanha!) ”casamentos” homossexuais, o que aliás me parece um contra-senso, para não escrever uma fantasia, não pela carga de amoralismo que acaso contenham mas porque chamar casamento ao que, na verdade não é, acaba por ser mais do que uma simples provocação? E a bigamia permitida e reconhecida por tantos ritos enquanto é criminalizada em diversos recantos da terra? E que dizer da proibição do consumo de carne porcina acolá, enquanto em paragens bem mais civilizadas é considerada como alimento tóxico? E o álcool, proibido pelos árabes e propagandeado pelos cristãos?! E que dizer ainda da escravatura, se não aprovada pelo menos tolerada por Santo Agostinho? Por hoje chega. O que não chega é considerar como maléfico tudo quanto não se enquadre no tradicionalismo que nos rodeia as mais das vezes envolto no manto diáfano da hipocrisia. Para cada um a sua verdade e as suas regras de conduta, desde que não ponham em causa as dos seus semelhantes. Exactamente como devemos lutar pela nossa liberdade com a condição de não arremetermos contra a dos demais. Não somos nós que ditamos as regras de conduta mas também não serão estas que me impõe as atitudes que entendo dever assumir. Antes do Sylabus não havia salvação fora da Igreja. O que me parece importante é respeitar as nossas consciências não por imposição alheia mas por dever de cada um. Agora a “salvação” pode estar em qualquer crença ou religião e ser alcançada segundo os dados ditados pela consciência de cada qual. n MJHM - Director honorário SP
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