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Ainda a estabilidade

por Manuel José Homem Mello em Abril 08,2010

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Um leitor assíduo - aliás, mais amigo do que leitor - tem o hábito de comentar comigo, quase todas as semanas, as crónicas que vou publicando nestas colunas. A maior parte das vezes acontece que os elogios quanto à forma são “compensados” no que respeita aos conteúdos mas as nossas discordâncias -chamemos-lhes... ideológicas - não são de molde a perturbar sequer a nossa fraternidade. O que confirma a possibilidade de se ser amigo sem ser correligionário.
Esta semana, o nosso diálogo percorreu os trilhos da estabilidade política, aproveitando a actualidade do tema versado na última crónica. Para o meu amigo, a ordem supera a estabilidade e, a tal ponto, que nem sequer podem ser comparáveis. Para mim, é exactamente o contrário.
Adiantemos algumas linhas mais, que o tema é aliciante.
Tudo quanto respeita à actividade humana tem verso e reverso. O que por vezes é, ou parece bom, acaba por se revelar daninho e vice-versa. Para facilitar, recordarei o que sucede com a moeda, que ora se valoriza, ora vai por aí abaixo. E assim por diante.
Um exemplo ainda mais expressivo era amiudadas vezes invocado por meu sogro: no que respeita aos negócios, não há bons nem maus; o que há é bons e maus gestores. As duas faces da mesma moeda.
Mutatis-mutandis com a ordem e com a estabilidade política. A ordem tanto pode ser boa como daninha. Positiva ou negativa. Assim como a grande, a incomensurável diferença entre as duas é que a ordem tende a ser convertida em violência com desprezo pelas mais elementares regras próprias de um Estado de Direito, enquanto a estabilidade representa uma mais-valia integrada num sistema democrático. O que não se pode - ou pelo menos não se deverá - é arvorar a estabilidade em mito á sombra do qual tudo pode ser permitido e aplaudido. Porque a ser assim acontecerá o que tive o cuidado de explicar ao meu amigo: da ordem nas ruas cairemos rapidamente no «acredita ou morres» e com a estabilidade endeusada continuaremos a marcar passo num “faz que anda mas não anda», segundo a graciosa expressão brasileira.  
E para dissipar quaisquer dúvidas mais renitentes, assisti esta semana a um caso paradigmático: tendo presenciado no Coliseu dos Recreios de Lisboa um concerto tocado por uma recém-formada orquestra russa, constituída por jovens músicos mas dirigida por um maestro veterano, dei-me conta a certa altura que o programa era constituído pela cantata profana Carmina Burana, de Karl Off, e pela Nona Sinfonia (com coro solistas e orquestra), de Beethoven. Qualquer das peças consideradas como obras sublimes e insuperáveis.
Querem saber o que aconteceu?
Quanto à Carmina, vá que não vá. Ainda foi reconhecida e, por isso mesmo, aplaudida, mas a Nona deve ter sido executada em qualquer outro palco, porque naquele não chegámos a reconhecê-la.
Aqui está como do muito bom e do genial, se pode ficar pela mediocridade... Com a ordem nazi e a estabilidade fascista também.
n MJHM - Director honorário SP


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