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Política e amizade

por Manuel José Homem Mello em Julho 15,2010

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Tive, ao longo da vida, diversas ocasiões e oportunidades de verificar que a política e a amizade não são incompatíveis (ou tão incompatíveis...) quanto, de uma maneira geral,  se acredita.
É claro que não se poderá ir até à convicção de sentido inverso; ou seja, que a política e a amizade se repelem visceral e mutuamente, como os cães e os gatos. Não exageremos. O que afirmo é que a inimizade entre pessoas que professam políticas ou doutrinas diferentes pode ser ultrapassada, acontecendo não ser assim tão raro que dois adversários políticos acabem por construir e cultivar excelentes relações pessoais.
Não quer isto dizer que se possa ser íntimo amigo de um «íntimo» inimigo. Churchill jamais poderia ser amigo de Hitler ou Charles de Gaule de Pierre Laval. O que digo é que política e amizade podem conseguir evitar descer pelo plano inclinado da inimizade. Aceito que seja difícil, mas recuso a impossibilidade.
Vem isto a propósito do recente falecimento do embaixador António Patrício, irmão do ex-ministro Rui Patrício, dos Negócios Estrangeiros,  ao tempo de Marcello Caetano. António, dois anos mais velho. O Rui, meu colega de curso. Por «fás e por nefas», fomo-nos encontrando por esse mundo além, ambos mantendo sempre um excelente relacionamento, mau grado a minha «proximidade» com o António fosse maior, talvez porque entre o Rui e eu próprio tivesse despontado uma certa «rivalidade», resultante de poder ser, dessa rivalidade, eventualmente chamado a substituí-lo no Palácio das Necessidades.
Espero encontrar como contar a «história» desta rivalidade (?) numa das próximas crónicas.
Fosse como fosse, Marcelo Caetano convidou-me e nomeou-me para integrar a delegação portuguesa à Assembleia-Geral das Nações Unidas. Convite que prazeirosamente aceitei.
Em NY, fui encontrar António Patrício, embaixador de Portugal.
Recebido com notória desconfiança e… visível afastamento, Patrício proporcionou-me um acolhimento caloroso, amistoso, de verdadeiro amigo. Apesar da barreira ideológica que poderia afastar-nos. A verdade é que do nosso convívio profissional saiu revigorada a nossa amizade. E de tal forma que, sempre que nos reencontrámos por esse mundo fora, era como se estivéssemos em Belém... saudando jubilosamente o «acontecimento»!
Caro António: não sei onde estejas, ou se estás em qualquer lugar. Mas seja como for gostaria que não nos afastássemos depois das «partida». O Império desfez-se mas a nossa amizade perdurará.
 n MJHM - Director Honorário SP

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