A História do Capuchinho Vermelho contada a adultos
“ O lobo pode perder a pele mas não perde o vicício” - ditado popular
Capuchinho Vermelho era assim chamada porque usava tal adereço. E era também uma boa e inocente menina pequena (quando me contaram a história era esta a versão, até que os psicanalistas viraram o bico ao prego). Vivia com a mãe, num dos extremos de uma floresta. Certo dia, esta mandou-a levar um cestinho de biscoitos à avozinha, que estava doente e habitava no outro extremo do bosque. Pôs-se a caminho, depois de muitas recomendações maternas: não vás pela floresta que é perigoso, mete antes à estrada que sempre se vê gente! A Capuchinho, boazinha mas desobediente, preferiu o arvoredo de onde, detrás de uma árvore, se lhe espécou na frente o lobo-mau (que nesta versão, antes de estudos psicanalíticos, era mesmo muito mau!)… Abreviando: Onde vais, Capuchinho?”, “A casa da minha avozinha que está de cama, levar estes docinhos…”. “E é longe?” “Lá para o fim da floresta, numa casinha branca, pequena “. “Vai uma aposta? Eu meto à esquerda, tu á direita a ver quem chega primeiro!”. A Capuchinho, ingénua, porque tinha idade para isso, aceitou a proposta. Chegou à frente o lobo, que corria mais porque tinha quatro patas - pelo menos na versão original… A avozinha lá estava metida na cama, engelhada que nem um figo seco, como competia às boas avozinhas do século passado. O mauzão amordaçou-a, tirou-lhe a camisa de noite a touca e os óculos, enfiou-a num grande armário que era habitual haver em casas antigas, e meteu-se na cama com os adereços roubados, à espera da Capuchinho. Que abriu a porta e se apressou para junto da avó com o cestinho da merenda na mão. Estranhou-lhe o tamanho da boca e do nariz, mas talvez fosse da doença; digo eu . O que se segue e assim se termina é que a menina foi comidinha pelo lobo (isto ainda antes da versão freudiana…), depois de um pequeno diálogo sobre as alterações de visual da velhota. (há outras versões não tão trágicas, mas não estamos em tempos de não esperar o melhor!) Contada a história, tenho a dizer que ela é para mim uma bela alegoria do que nos está a acontecer. Descodifico: o Primeiro-Ministro era o lobo-feroz, a Capuchinho éramos nós; a floresta o país; a avozinha as “amordaçadas” criaturas que não falam a língua do lobo; os docinhos, os tais que com as papas enganam os tolos, a casinha a “urna” onde se espera meter uma maior absoluta… Era assim: deixou de ser! Temos Sócrates como Capuchinho e as suas palavras como bolachinhas. O Lobo Mau escafedeu-se até lá para o Outono. A floresta, espero que não “arda” mais que o normal para a época. A avozinha somos nós, acomodados no armário da política, sem camisa de noite nem óculos mas conservando a touca… Contei a história e a sua reformulação. Falta uma anedota que também se encaixa no momentoso assunto. Três senhoras de certa idade, ex-colegas de liceu que não se viam há muitos anos, combinaram telefonicamente um encontro para um cházinho de recordação de velhos tempos. Passados os primórdios da conversa, perguntam-se pelos respectivos filhos. Diz a primeira ufanamente: o meu, foi para padre, está a priorar uma óptima paróquia e toda a gente lhe chama vossa reverência! A segunda rejubilava mais ainda: o meu também começou por aí , mas já é bispo todos lhe beijam a mão e tratam por Vossa Eminência! A terceira, moita carrasco. Então e o teu? O meu é stripper, ganha quanto quer, e quando aparece em público todas as mulheres dizem: meu Deus! Lembrei-me desta ontem ao ouvir uma entrevista a televisiva a Sócrates… Vá-se lá saber porquê!
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