Águeda
n Alguns conterrâneos mais pacientes para acompanharem semanalmente as minhas dissertações, lamentam que raramente interfira nos assuntos da nossa terra. Se o município fosse da minha “côr” era capaz de o fazer mais frequentemente. Assim, há sempre o respeitinho de quem entra em casa alheia… Torga dizia que “Universal são quatro paredes”. Atrevo-me, pois, a vasculhar alguma coisa das quatro paredes da minha rua, que essa é como dizem da comida da inglesa: não tem solução. Da famosíssima Casa do Engenheiro, já há muito deixei de me interessar. É um tal de versões daqui e dali, que o melhor é deixá-las entrar no ouvido a cem e deixá-las saír a duzentos. Talvez toda caiada de branco, telhado reformado com bonitos beirais, portas e janelas a verde escuro, um S. José de Azulejos… Uma casa portuguesa, com certeza, e já não havia o incómodo de tentar explicar aos turistas de outras terras que coisa é aquela. Com pouco sucesso, diga-se… Prometi que não falava e não falo mais, pronto, acabou-se. n De outra habitação já posso dizer mais qualquer coisa: há na praça Dr. Albano de Mello/1º de Maio, assim de esquina, uma casa muito antiga, com lindíssimos azulejos em relevo, coisa de que me lembro desde pequena estar ali. Não sei a quem pertenceu, ou foi pertencendo, através da história da cidade. Sei que, como repetem vários fados antigos, a propósito de moçoilas com pouco juízo, deu um mau passo na vida… Diz-me quem por ali trabalhava e vive que, à noite, há “romarias” e cenas canalhas. Por muito liberal que seja, custa-me saber que a tão linda casa, em pleno centro da cidade, nada se possa fazer para reabilitar habitação e ruas envolventes do triste fadário. Coitado do meu tio-bisavô, dr. Albano de Mello, ali metido, quietinho no seu busto sobre a peanha cheia de laudatórias evocações e invocações, “obrigado” a conviver com aquela vizinhança! Como há opção - mais moderna - de chamar à praça 1º. de Maio, vou começar a designá-la assim, que sempre permite alegrias várias. n O meu prezado presidente da edilidade, está cansado de saber, por boca própria, que não gosto do “jardim” que vai do Tribunal para baixo. É tristinha e desconsolada. Da rotunda que lhe fica ao fundo, nem falar! Tanta parra e tão pouca uva… Não volto à carga porque também ele me já disse, e por boca própria, que ali não se mexe mais. Seja. E arranjar plantas que embora resistentes a verão e inverno, sejam mais coloridas? Quem desce da Venda Nova para a Rua de Cima, como eu, todos os dias, fica (eu fico…) com a impressão de ver uma sementeira de couves lombardas. Faltam ali uns amarelos, uns vermelhos, uns rosas - e já basta quando não pareceria uma bandeira de país de 3º. mundo. n Bem me parecia que deixei a “universalidade” da minha rua antes de tempo: desapareceram os quadradinhos amarelos do cruzamento. Acho que foi uma experiência bem intencionada, mas falta não faz. Parabéns pela celeridade na colocação da passadeira para peões, que lá estava primitivamente. Falta faz ainda outra passadeira antes da “casa-museu”, enfim, falta segurança que o trânsito é mais que muito e que eu saiba, nunca ninguém pagou multa por ali conduzir a 70 ou 80 à hora. Passar o bico da ancestral casinha é empreendimento para mais cautelas que passar o Bojador! Sei que agora tenho paralelamente um óptimo passeio para transitar, mas e a minha liberdade (e o hábito…) de ir antes por ali? E esta de quando tenho boleia para a Igreja Matriz, ter o condutor de descer a antiga estrada nacional, rodear a rotunda que lhe está no fim e voltar a subir? Os meus perdões ao autor da ideia, mas não tem lógica! O que vale é que nessas ocasiões vou para a Missa e, como deve ser, o meu espírito conciliador vence o cáustico… Muitos outros sermões me têm encomendado, mas limito-me a falar por mim que não sou prégadora. n LUISA MELLO
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