Oração por irmãos de longe
As televisões trazem-me imagens de uma longínqua terra além-atlântico, onde, como no Templo de Jerusalém, não restou pedra sobre pedra. E sangue, muito sangue. E a dor sem remédio dos que que, provavelmente, mais se quereriam entre os mortos que vivendo. Longe mas amarfanhando-nos até à alma, como se irmãos da nossa terra se tratasse. Brutal, como mais do que tudo se possa imaginar. Gente que jamais conseguirá chorar ou, de tanto chorar ficará tão cega de sentimentos que só a insensibilidade lhe permitirá continuar a existir. As placas tectónicas têm de ajustar-se, dizem os cientistas, os positivistas, os agnósticos. Os crentes como eu pensarão que o Criador organizou este mundo com maravilhas e aleijões ao jeito dos seus habitantes. Não nos ficamos pela constatação; temos a perplexidade e a Oração. O Apocalipse pode suceder milhões de anos a passar ainda. Estes pequenos apocalipses servirão, talvez, para nos sacudir, mesmo de longe, da indiferença e do egoísmo em que normalmente passamos os dias. E para interiorizarmos fundo que o nosso Próximo está a milhares de quilómetros, sobretudo quando a desgraça lhe bate à porta. Cristo!… como todos somos irmãos!… PORTUGAL E GRÉCIA: Coincidência ou não, à vista daquele fim de mundo, os rodapés da “grande caixa” anunciavam constantemente que uma importante revista americana de Economia, previa para a Grécia e para Portugal uma morte lenta! Tal e qual. No mesmo dia em que o ministro das Finanças e o Governador do Banco de Portugal do meu país, anunciam um tímido começo de retoma… Talvez daí a lentidão da morte… Só que morrer aos poucos é bem pior que morrer de uma vez só! Não quero acreditar na revista americana mas também não acredito em nada do que venha deste Governo. A crise mundial caiu-nos nos braços (e nas justificações de quem mandava) já a nossa crise rastejava qual serpente e o governo fazia de nós morcegos… Em vez do fado da desgraça, cantava-nos ele o “la vie en rose”. O resto eram os velhos do Restelo! Incómodos, chatos, exagerados muitas vezes, é certo; lúcidos e destemidos os novos mundos que os ousados deram ao Mundo. Lembremos, contudo, o Fernando Pessoa da “Mensagem”: Ó mar salgado/quanto do teu sal/ são lágrimas de Portugal!”. Ainda assim, não morremos lentamente. Os milhares de portugueses que no mar se afogaram ou de terríveis doenças das grandes viagens de então se finaram, estão todos na árvore genealógica dos nossos Maiores. Verdade é também, que o seu sacrifício, se muitas glórias nos trouxe, muita miséria continuou a deixar nesta nossa terra firme e muito dinheiro que a poderia ter atenuado foi gasto em frivolidades e “aparências”. Valeu o que foi gasto em pedra. Pode não ter morto a fome a muito desamparado da sorte, mas ainda hoje está orgulhosamente de pé! (De pé… não a correr sobre carris). Como Portugal ficará, eu creio, por maior que seja a tempestade do momento. GLOBALIZAÇÃO: Percebo tanto de macro-economias como de lagares de azeite, mas ainda consigo desemburrar sobre o assunto, que isto de enconomias abertas-escancaradas mesmo!— quando precisadas de conserto devem ver-se em mais dificuldade no conserto que as ruínas que o efeito do sismo de ontem nos mostraram. A globalização é linda como fraternidade e solidariedade (e ainda assim, como proclama o velho ditado, “quem parte e reparte ou fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte…). Quando “toca a rachar”, outra expressão de tempos idos, pode não deixar pedra sobre pedra, pelo menos onde ela é mais precisa forte e firme, porque menos amparada. Morrer aos poucos, nós? Tirem-me os rodapés necrófilos da frente, que ainda esta noite tive um pesadelo que poderia ter resultado em enfarte!…
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