O Verão do meu descontentamento
"De que serve mudarmos de Governo se continuamos a comportar-nos do mesmo modo?" - Pedro Baldaia - 2007
n Este ano, o período de Verão usualmente chamado de férias grandes foi para mim demasiado prolongado. De cá para lá, de lá para cá, como cantava uma lindíssima canção da Maria Clara, que tinha a voz mais cristalina e a dicção mais correcta que ouvi até hoje e ao som da qual estudei muitas e muitas horas. Sendo eu por natureza adepta de vida calma e com rotinas, andanças variadas desestabilizam-me sempre. Além de que Águeda faz-me falta. Sou muito crítica de algumas mudanças que por aqui se fazem e vão fazendo, mas, como é usual dizer-se e sentir-se, não há terra como a nossa, inglesmente falando: "home, sweet home"… Depois, os noticiários aos quais tento já fugir o mais que posso mas que são, como se diz do abismo, uma atracção fatal… Facto: estamos hipotecados, melhor dito, a nossa dívida soberana está hipotecada à Europa e ao FMI, que, ou pagamos ou nos levam os anéis e os dedos, com muita sorte se não forem os braços e o mais que adiante se verá. Que nos vigiam melhor que o cão ao rebanho (o que não sei se é bom, se mau…) e pedem contas da nossa conduta de três em três meses. Não será mau, dado o descalabro a que o desnorte socialista apoiado e incentivado por sucessivos governos nos conduziu, mas é pelo menos humilhante… Podem os compatriotas do socialismo científico bramar à vontade contra a ultra-liberalidade do governo: temos de cumprir o que assinámos, para "salvar o coiro e o cabelo" e o que assinámos foi uma entrega às teses e procedimentos mais liberais. Manda quem pode, obedece quem deve… Agora, depois de uma overdose de Sócrates em tudo quanto era comunicação social, elegermos um primeiro-ministro que não aparece também é demais. Sei que, em vez de estado de graça, entrou já em estado de desgraça. Que começou por anunciar mais impostos em vez de cortes na despesa de Estado (o que talvez também fosse fatal para poder apresentar-se perante a Troika três meses depois da entrada em função de cara lavada e barba feita) o que, embora prevísivel, não aqueceu a alma a ninguém… Mas, que diabo, saia da toca de vez em quando! Os ministros da sua guarda-avançada devem estar a fazer o melhor que podem mas as suas aparições não dão para o gasto das nossas angústias. A mim só me resta pensar: trinta e sete anos passados em democracia, onde está a minha felicidade de ser…livre? As reticências antes da sagrada palavra estão em que, seja lá porque circunstâncias fossem, nunca, desde que nasci, senti, em qualquer momento falta de liberdade. Estou mais pobre, mais insegura, mais desalentada do que alguma vez me recordo. Posso deitar cá para fora todos estes desabafos? Posso. E daí?!… n Não tenho nada a ver com a Líbia, aparte sempre ter achado que o coronel é maluco de nascença. Não acredito que todo aquele sangue derramado dê alguma vez num regime democrático: os fundamentalismos islâmicos nunca o irão permitir, nem ali nem nos "libertados" vizinhos. Mas que as reportagens que nos chegam são outro pesadelo de Verão, é facto. n Para culminar, a cosmopolita equipa do meu Benfica, que deveria passar a chamar-se Sport, South América e Benfica. Não me lembro de nenhum português que por lá transite, atrás da bola. Naquele balneário, deve ter de se "hablar de espácio", para que qualquer lusitano seja compreendido! E já agora: o futebol e seus intervenientes também são taxados?!… n LUISA MELLO - 27-08-11
1152 vezes lido
|