Oliveira Salazar
Nos primeiros tempos post revolucionários, falar de Salazar - ou até mesmo pronunciar o seu nome - constituía um pecado político merecedor das mais duras penas do inferno democrático. Salazar pouco menos era do que um Belzebu, do qual chegara a parecer impossível libertar os portugueses. Durante alguns anos, procurou-se apagar a recordação do homem que governara Portugal ao longo de quase quatro décadas. E embora não se tenha chegado a exageros ridículos, como aconteceu, por exemplo, com Trotsky - cujo nome e foto Estaline mandou que desaparecessem da enciclopédia soviética, ou como Getúlio Vargas, riscado da Enciclopédia Luso-Brasileira, quando o primeiro foi, até à morte de Lenine, o número dois da Revolução de Outubro e, o segundo, governou o Brasil dezenas de anos, até dar um tiro nos miolos, deixando uma carta em que anunciava a “saída da vida para entrar na História”. Embora com Salazar não se tivesse chegado a esses exageros, a verdade é que pouco faltou para se atingir o “desaparecimento” completo. Mas não havendo fome que não acabe em fartura (ainda que o inverso seja mais frequente...), do zero acabou de se passar ao infinito. Tal vulcão adormecido que, de repente, entra em erupção lançando a sua lava incandescente vinda das entranhas da Terra, eis Oliveira Salazar ”ressuscitado”, recordado, aplaudido, “perdoado “mesmo. O Inferno democrático esquece os agravos e o nome e a obra do estadista rompem o manto opaco em que o tinham envolvido. Mas o que é demais volve moléstia. Era fatal que o exagero do neo-salazarismo, contrastante com o saneamento anterior, acabaria por provocar a reacção dos...anti-reacionários. E sendo difícil atacar o homem na sua probidade e impossível pôr em causa a sua honestidade, vá de arremessarem contra ele umas pedradas abjectas dos seus eventuais pecadilhos humanos, procurando transformá-lo num don juaneco de trazer por casa que em lugar de se dedicar aos negócios do Estado se limitava a medir o comprimento das saias e a generosidade dos decotes... Podem crer esses senhores, quer de um quer do outro lado da barricada, podem crer que prestam um mau serviço a António de Oliveira Salazar. Prestam um mau serviço aqueles que o incensam desmedidamente, na medida em que exageram nos elogios, quando também haverá muito que criticar. Prestam-lhe um mau serviço os que o denigrem atacando-o na vida privada, porque ninguém acredita nas aleivosias que o ódio lhes faz vomitar. Essa espécie de filme que, por exemplo, a SIC passou constituiu uma afronta à dignidade de quem, melhor ou pior, durante tantos anos governou Portugal.
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