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Muita parra, poucas uvas…

por Manuel José Homem Mello em Setembro 16,2010

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Quando Jean La Couture escreveu  e  publicou a sua monumental biografia sobre Charles de Gaulle, o ex-primeiro-ministro francês Piérre Mendés- France saudou o aparecimento dessa iniciativa editorial nos seguintes termos: “Mais de 100 livros sobre de Gaulle, eis finalmente o primeiro!”.
Ao chegar até mim a biografia de Salazar, da autoria de Ribeiro de Meneses, professor doutorado pela Universidade de Dublin, esperava puder dizer o mesmo que Jacques Delors escrevera sobre Charles de Gaulle, ou seja, dezenas de livros sobre Salazar e finalmente o primeiro!
Ao lê-lo, confesso ter sentido uma enorme frustração, porque, atendendo à apresentação do livro e às buscas minuciosas que alardeia, prometia poder ser apreciado como uma obra capaz de ser considerada um trabalho fora de série.
É que o autor preferiu dar inequívocas provas de narcisismo a laboriosas e pacientes  buscas de erudição, optando por se limitar a escrever muito  sem ser capaz de revelar fosse o que fosse. Daqui que  me pareça justo considerar este SALAZAR uma obra menor,  quanto à qualidade, e de terceira linha, no que respeita aos novos dados que o percurso do biografado  justificava e  continua a justificar. Ou seja: muita parra, poucas uvas….
É bem possível, para que não me acusem de subjectivismo, ou de que esteja a ser pretencioso, ou mesmo despeitado, uma vez que ao longo das 800 páginas não consegui encontrar uma única citação do muito que também escrevi sobre  Oliveira  Salazar e, menos ainda, uma ou mais tomadas de posição ou novas interpretações sobre os inúmeros acontecimentos que ocorreram  ao longo do consulado. Isto não quer dizer que não estejamos em face de uma obra séria e bem intencionada mas, na realidade, pelo menos eu esperava bem melhor. Não  é uma obra de História, nem o trabalho da autoria de um escritor. No vero sentido da palavra, para que uma obra tenha “dono”, terá que o autor ser reconhecido e para que seja considerado como verdadeiro escritor, terá que evidenciar estilo próprio que o diferencie dos demais.
Eis alguns exemplos:
- “Arranca o estatuário uma pedra bruta dura e informe…” (António Vieira, como é óbvio).
- “Senhor, bispo havemos, não cabe aqui nova eleição (Alexandre Herculano).
- “Romeiro, romeiro quem és tu? Ninguém (Almeida Garret).
- “O génio dos acontecimentos é superior ao génio dos Homens (José Estevão Coelho de Magalhães).
- “Está o lachivo e doce passarinho/Suas penas com o bico ordenando…(Luís de Camões)
- “No meio de uma feira, uns poucos de palhaços…Lembrei- me de vós, funâmbulos da cruz…” (Guerra Junqueiro)
- “Batem leve, levemente como quem chama por mim… (Augusto Gil)
- “Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal (Fernando Pessoa)
Ora, como se pode concluir, o doutor Ribeiro de Meneses pode ter escrito muito, pode saber bastantes coisas mas não é um escritor na verdadeira acepção da palavra e a sua obra não conseguiu ofuscar a primeira das biografias do doutor Salazar, da autoria do embaixador Alberto Franco  Nogueira.
n MJHM - Director Honorário SP

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