O livro de Saramago
O novo livro - CAIM - de José Saramago foi lançado com o foguetório que costumeiramente acompanha cada uma das obras do autor. Saramago independentemente do juízo que dele se faça, quer como escritor, quer como cidadão, merece sempre um olhar de curiosidade porque, quer se goste ou não, daquilo que faz e que diz, conquista o direito à diferença entre todos os demais. Contra a opinião de muitos não me agrada, nem a figura de cidadão, nem o nível da qualidade de escritor. Como cidadão, Saramago tem-se revelado ao longo da vida, um homem áspero, quezilento, demasiado senhor do seu nariz, desconfortado com a sua “pátria chica”, ao invés, por exemplo do que pensa Mário Vargas Losa. Como escritor não conseguiu chamar a si o interesse pelo conteúdo dos livros que vai publicando e cuja leitura chega a ser mais chata do que a maior parte dos livros do centenário Mário Oliveira. É porém, todavia, evidente que um homem tão bem sucedido, algo de diferenciado possuirá. Porque é impossível alcançar semelhante sucesso ou mérito independentemente de uma ou mais qualidades invulgares. Ora a verdade é que, para chegar aos altares da grande literatura, como Saramago, indesmentivelmente chegou, torna-se necessário saber fugir da banalidade. A glória nem sempre premeia os que partiram e, as mais das vezes, até se revela negativa em relação ao devido valor. Bastará lembrar entre centenas de outros, os casos paradigmáticos de Vangog, Beethoven, Mozart e Moliére, para dissipar quaisquer dúvidas. Foram homens como estes que acabaram por glorificar aqueles que, em vida, não souberam reconhecer-lhes as qualidades. Mas nada disto seria importante se não fosse uma outra realidade insofismável e que constitui uma interrogação a que chamaria “mistério Saramago” “Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo…». «A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de Caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda. A história acabou, não haverá nada mais que contar”. São estes o primeiro e o último períodos do livro de Saramago. Digam lá se isto é escrever bem!? Aqui perto, Camões não terá ficado muito contente, isto para não referir Shakespeare, Tolstoi ou Chateaubrian. Pobre Saramago!
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