Li e não gostei
por MJHM em Junho 23,2010
A morte de uma figura mediática - como aconteceu agora com José Saramago - constitui, as mais das vezes, oportunidade e pretexto para manifestações de índole política, cultural, religiosa, desportivas ou quejandas. Os homens não perdem qualquer ensejo para se colocarem nos bicos dos pés, de modo a realçarem o protagonismo de cada um. Entre nós, não é diferente do que acontece em qualquer outra parte. José Saramago foi um polemista que não deu tréguas aos seus adversários, designadamente ao catolicismo e ao capitalismo. Oriundo de berço mais do que modesto, subiu por mérito próprio os degraus do valor e da celebridade, tendo alcançado o mais cobiçado prémio literário concedido pela comunidade internacional. Revelou-se firme nos propósitos e coerente nas convicções. Sem esforço, poderá ser considerado um excelente escritor, muito embora não tão excelente quanto a si próprio se considerava. Era agreste, impetuoso. Desbocado. Mas no saldo da balança, entre virtudes e defeitos, superou aquelas em detrimento destes. O julgamento da posteridade ditará a sentença que virá a ocupar. Mozart e Beethoven foram pateados quando se entoaram pela primeira vez os acordes celestiais da maior parte das partituras que compuseram e Van Gog nem um só quadro conseguiu vender. Hoje, vale cada um para cima de 50 milhões de dólares. A glória da posteridade vence as calúnias da inveja e da mediocridade. Li grande parte da obra de Saramago. Embora reconheça os seus dons de escritor, a verdade é que não gostei. E não gosto da maneira de escrever. Estou no meu direito. A unanimidade é um mito que se deve combater. Sempre é melhor do que o brasileiro Nelson Rodrigues, que dizia de alguns livros dos seus compatriotas: «Eu nem li nem gostei...». Eu li, sem ter gostado.
1653 vezes lido
|