Calor, lazer, preocupações
O meu contencioso com o tempo está de momento em pausa. Aqui no interior do país - Figueira de Castelo Rodrigo, terra natal do meu marido - as horas correm sem destino nem objectivos - corre as 24 horas do dia na mais sagrada quietude. Não tenho casa a governar ou obrigações a cumprir. Não fôra o excessivo calor que incomoda muito, e diria que talvez o pecado da preguiça atinge aqui o seu auge... Jovens e menos jovens passam na piscina grande parte do tempo, mas eu nisso sou pouco portuguesa: banhos só gosto dos de banheira... - ao mar e às piscinas nem lhes chego ao pé. Trouxe para aqui um dos primeiros romances do Saramago: "Clarabóia". Para quem deste autor, só dois dos posteriores - o Memorial do Convento e, sobretudo, o Ano da Morte de Ricardo Reis - leu com devoção e não por obrigação, tenho-me admirado. A forma de escrever é totalmente "normal" - isto dito com as minhas desculpas aos mais ferrenhos admiradores! Do conteúdo não posso ainda opinar, que estou no início. Parece-me interessante, mesmo assim. E, claro, não se põe o problema de escrita com acordo ortográfico. Acho até que não se poria nunca com Saramago: um bom escritor nunca iria trocar a etimologia pela fonética! Antes de vir atravessei a av. Eugénio Ribeiro para uma presença no nosso Jornal. Ia apanhando uma insolação! Aqui, não só na vila como na feguesia onde se encontra a casa - Mata de Lobos (foto da igreja), uma freguesia que foi muito castigada quer por espanhóis quer por franceses quando das invasões napoleónicas e que conserva o mais intactas possível as suas características históricas - há árvores em banda, velhas ou novas; é um regalo! Por falar neste jornal: tenho-o recebido irregularmente no último mês e meio. Quando chega é uma alegria: a minha terra vem até mim! Gostei especialmente do artigo do dr. Paulo Matos, que assinaria por baixo, e, mais recentemente, da história da fundação do Hospital Conde de Sucena. Foi durante cem anos uma das preciosidades da nossa Águeda. Que orgulho tínhamos no nosso Hospital! De que angústias e sobressaltos nos livrou! E agora? Desejo-lhe de todo o coração uma vida ainda muito mais longa. E sobretudo que continue a ser para os filhos da terra um lugar de esperança e segurança em horas de aflição! Nem de tudo havemos de ficar carentes. Quase ia a dizer carecas...
1172 vezes lido
|