Teremos mesmo saída? (1)
No seu infatigável afã de estadista, escritor, comentador, polemista e um ror de coisas mais, o dr. Mário Soares acaba de publicar mais um dos seus inúmeros livros, desta feita de parceria com a jornalista Teresa de Sousa no papel de entrevistadora. Volta e meia, sinto vontade de comentar os escritos e as afirmações do dr. Soares, naturalmente sem a menor intenção polémica, tão gratificantes há tanto tempo se têm revelado e mantido as nossas relações, firmes como rocha granítica, mesmo quando alguns “solavancos“ parecem querer abalá-las. Como dizem os ingleses, «never explain, never complain» . Portugal e os portugueses devem a Mário Soares incomensuráveis, inestimáveis e inapreciáveis serviços, como nenhum outro lhes prestou no decurso das derradeiras décadas. No livro «Os líderes do Século», que dei à estampa em 1998, prefaciado por Diogo Freitas do Amaral e editado pela Gradiva, tive ensejo de incluir o ex-Presidente da República na lista dos portugueses que mereceram, ao longo dos nossos 800 anos de História, não só libertar-se da lei da morte mas, naturalmente, lograram obter inequívoca projecção internacional. Intimorato apaixonado pela Liberdade, servidor da Democracia, “pagou“ com o exílio e o cárcere a defesa intransigente das convicções que cedo abraçou. Ainda aluno universitário, chega a filiar-se no Partido Comunista, para logo se dar conta do embuste do chamado «centralismo democrático», eufemismo que já então pretendia negar a idiossincrasia totalitária e despótica do marxismo-leninismo. Inconformado com o autoritarismo salazarista, inicia, logo após o termo da 2ª. grande guerra, uma intensa actividade conspiratória. A Primavera Marcelista ainda chega a criar-lhe alguma esperança, que não tarda a desmotivá-lo. O regime resiste. Mas Soares também. A partir do 25 de Abril, torna-se protagonista. Fundador do Partido Socialista, não tarda a ser Ministro dos Negócios Estrangeiros, 1º. Ministro e Presidente da República. Cerca de um quarto de século depois, Mário Soares era já possuidor de um curriculum excepcional, vice-presidente da Internacional Socialista, cerca de 40 doutoramentos honoris--causa pelas mais diversas universidades nos mais diversos recantos, designadamente até nos mais longínquos países. Este homem laico, socialista, republicano, ao ser plebiscitado por 75% dos votos expressos nas urnas em 1991, obtinha a consagração da maioria dos portugueses incluindo inúmeros católicos, monárquicos e liberais. E não se diga que foi a sorte que o bafejou. Pode tê-lo bafejado mas o sucesso continuado, persistente, nunca é obra do acaso mas consequência do talento, da perseverança e do afinco. Para chegar tão alto, foi obrigado, naturalmente, a travar inúmeros e duros combates, enfrentando os mais diversos adversários. E se perdeu algumas batalhas, acabou quase sempre por ganhar as “guerras” em que participou. Venceu a batalha da descolonização, seguida da primeira eleição presidencial, partindo dos miseráveis 7% que todas as sondagens indiciavam; superou os obstáculos que a integração de Portugal na Comunidade Europeia apresentava. Derrotou politicamente a maioria dos adversários que enfrentou, alguns que considerava amigos do peito. Como seria inevitável, cometeu erros e sofreu derrotas, sendo verdade que lhe podem ser apontados alguns desvios, incoerências e fraquezas, como acontece a todos os homens. Mas, para além das imperfeições, Mário Soares avulta como personalidade de excepcional calibre, a ponto de bem merecer o que Bolinbroke um dia escreveu sobre Lord Marlborough: A um homem de tal estatura merece que lhe sejam esquecidos, quiçá perdoados, os defeitos que possua. Ao publicar o livro, com a entrevista concedida a Teresa de Sousa, o dr. Soares não teme lançar- -se em nova aventura, mau grado a sua provecta idade e a crise que nos atormenta, fazendo uma corajosa, ainda que demasiado optimista, profissão de fé no futuro de Portugal. Tenho pena de não poder acompanhá-lo tão convictamente. Embora deseje que não seja eu a ter razão. Como iremos pagar os cerca de 100 mil milhões de euros, só de juros? Como poderemos resistir à força centrípeta castelhana e ao poderio económico de «nuestros hermanos», num contexto de livre concorrência, sem protecção das «golden shares» e quejandas manifestações de pseudo-soberania? Numa próxima oportunidade, espero poder debruçar-me mais de espaço sobre as razões que levam o dr. Soares a manter o seu impenitente optimismo sobre o futuro de Portugal. n MJHM - Director honorário SP
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